segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A História de uma Família - Parte 2 - Adolescência



Ao voltar para a Nova Zelândia Aotearoa, aceitei novo em­prego como terapeuta de estimulação precoce para trabalhar com crianças que tinham múltiplas deficiências. Nossas filhas, que tinham opinião própria e não a escondiam, agora frequentavam o colégio estadual local. À medida que cresciam, os desafios fi­cavam mais difíceis. Esses anos de adolescência não foram fáceis e, por vezes, eu não me senti à altura da tarefa de educar duas filhas que pareciam dispostas a infringir todas as regras e a en­contrar seu próprio espaço na vida. O conhecimento de que es­ses anos são importantes para se livrar das amarras do lar e se rebelar contra os valores dos pais nos fazia continuar quando continuar ficava difícil. Amigos e parentes nos deram seu apoio e nos ajudaram a atravessar essa época difícil.

Tendo sido criados em famílias com valores cristãos relativa­mente tradicionais, Neil e eu, como muitos outros pais, tentamos passar nossos sistemas de valores a nossas filhas. Eu achei fácil falar com as meninas sobre questões sexuais e tinha a esperança de que elas não se tornassem sexualmente ativas muito cedo.

Jo se dava bem com meninos mais como companheiros para o esporte e música do que como "namorados". Contudo, ela parecia ter fortes amizades com suas amigas. Eu sabia que não era incomum para moças da sua idade experimentar apego emo­cional para com outras moças.

À medida que ela crescia comecei a suspeitar de que ela pode­ria ser lésbica. Neil e eu conversamos sobre isso e ponderamos se "era apenas uma fase" ou algo mais profundo. Achamos que o melhor que poderíamos fazer por ela seria criar um ambiente em casa que, sem traumas, eventualmente lhe permitisse revelar-se lésbica. Isso não quer dizer que não houve tristeza alguma da nossa parte no início, porque pensávamos que a vida seria bem mais difícil para ela e para nós se ela fosse lésbica. Sugeri a ela que mantivesse aberta a possibilidade de ter relações heterosse­xuais no futuro.

Jo se lembra de quando estava no colégio e ia ao cinema com amigas, que ela achava atraentes as estrelas, ao passo que suas amigas eram atraídas pelos astros. Em livros e na televisão ela também se identificava com as personagens femininas. Dando-se conta de que esta era uma reação diferente da de suas amigas e que ela se sentia atraída para o mesmo sexo, Jo foi à biblioteca para se informar sobre como o resto do mundo encarava a ho­mossexualidade. O que ela encontrou foram livros descrevendo homossexualidade como desvio, disfunção e anormalidade se­xuais. Ela ficou desapontada com isso, uma vez que se sentia bem da maneira como era. Sua "lógica do tratamento igual" lhe dizia que não está certo tratar algumas diferenças de uma manei­ra, e outras diferenças, de outra.

Em meados dos anos 80, a proposta parlamentar sobre a le­gislação de descriminalização da homossexualidade foi largamen-te discutida no país, e todas as noites na televisão e diariamente nos jornais, Jo via e ouvia debates sobre homossexualidade. Pela primeira vez ela ouviu termos depreciativos tipo "bicha", "fres­co" ou "veado". E a maior oposição à nova legislação estava vin­do de certas igrejas e organizações cristãs.

Jo não conseguia entender como é que pessoas das quais se espera que sejam as primeiras a dar atenção e mostrar compai­xão podiam falar sobre pessoas como ela como se fossem uma "abominação", quando ela não passava de uma mulher comum, atraída por mulheres, e não por homens. Ao tentar discutir com as pessoas, ela sentia que os argumentos delas eram ilógicos, mas tinha medo de reconhecer sua homossexualidade no ambiente do colégio por causa dos fortes sentimentos emocionais negati­vos expressos por alguns professores e colegas.

Como estudante, Jo era valorizada e apreciada por suas habi­lidades em críquete e música, por sua amabilidade e seu senso de humor. Ela ficou perplexa e preocupada quando precebeu que poderia perder tudo isso caso revelasse sua orientação.

Durante a nossa última visita aos Estados Unidos (1986/87) Jo teve um belo relacionamento com um rapaz de 15 anos, que eu esperava que se transformasse num "primeiro amor". Ele era um jovem encantador e eles se davam muito bem, mas eu notei que nem ele nem Jo queriam algo mais do que amizade. A reação dela era diferente daquilo que eu lembrava dos meus próprios sentimentos quando tinha 15 anos. "

Em seu grupo social na escola, Jo se deu conta de que um namorado era um passaporte para ser aceita e que as moças que não tinham namorados nunca iam a nenhum evento so­cial. Ela fez amizade com vários rapazes que lhe deram não só acesso ao cenário social, mas também foram bons companhei­ros e amigos.

Jo tem tido muitas amizades, de moças e rapazes, relacionan­do-se em nível intelectual, de uma forma aberta e afetuosa, com­partilhando ideias, música, humor e atividades. Ela também constatou que jovens gays, homens e mulheres, muitas, vezes, se dão bem e constituem relações seguras, não-sexuais, porém social­mente aceitáveis, que facilitam sua passagem pelos turbulentos anos da adolescência.

A primeira grande "gamação" de Jo por uma moça aconteceu quando ela tinha 16 anos. A moça tinha um namorado, e Jo saiu com o melhor amigo dele por vários meses a fim de poder ficar ao lado da amiga. Mas quando Jo lhe revelou seus sentimentos, a moça obviamente ficou muito embaraçada com a declaração, e a partir desse momento elas começaram a se afastar uma da ou­tra. Anos mais tarde, retomaram o contato e esqueceram suas diferenças anteriores.

Pouco depois disso, correu a fofoca pela escola de que Jo provavelmente era lésbica, mesmo que ela não tivesse tomado a decisão de assumi-lo abertamente. Karla, que frequentava o mes­mo colégio, várias vezes teve que ouvir comentários depreciati­vos sobre sua irmã e até sobre sua própria sexualidade. Em retrospecto, ela se lembra desse tempo como sendo muito difí­cil, mas, por assumir o que acreditava ser justo e razoável, adqui­riu bastante força e caráter pessoal.

Com quase 17 anos, Jo muitas vezes convidava uma amiga para passar a noite em nossa casa. Eu sabia que isto era parte importante de sua socialização, mas suspeitei que estivesse co­meçando uma relação de natureza sexual. Conforme me lem­bro, perguntei-lhe certa vez: "Será que você tem algo que precisa­ria me contar sobre sua relação com... ?" Jo respondeu que esta­va tendo uma relação com ela e que pensava ser lésbica. Jo não se lembra disso como uma experiência traumática. Ela se lem­bra, sim, de quando tinha cerca de 13 anos, e me perguntou: "Que você acharia se eu fosse lésbica?" (provavelmente durante uma discussão genérica sobre homossexualidade), e da minha reação de aceitação.

Estávamos num dilema...

(Continua nos próximos dias! Não perca a última parte dessa história!)

3 comentários:

  1. Simplesmente perfeito

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  2. Gostaria que você desse uma olhada no meu novo blog, please, rs
    http://jeovanne-homossexualidadesaudvel.blogspot.com/

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  3. Olá, Jeovanne! Obrigado mais uma vez por participar do nosso Blog!

    Parabéns pela sua inciativa em lançar mais um Blog defendendo a homoafetividade!

    Abraços fraternos!

    Alexandre Feitosa

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