sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Jesus e a Homossexualidade: O Centurião Romano


           Como em toda a Bíblia, os escritores sacros não procuraram dar ênfase a outros povos e culturas. A identidade judaica é a principal marca cultural presente na Bíblia. O que extraímos de costumes e práticas de outras culturas e povos é conseguido graças a estudos comparativos, históricos e linguísticos. O presente artigo não pretende ser conclusivo, mas reflexivo. O caso do centurião de Cafarnaum pode ser o único registro bíblico entre Jesus e um homossexual. Episódio que mereceu menção nos Evangelhos em virtude da grande fé do militar romano. O texto foi extraído de nosso primeiro livro “Bíblia e Homossexualidade: verdade e mitos”. Boa leitura! 

O Centurião[1] de Cafarnaum
Por Alexandre Feitosa

Outro relato dos Evangelhos bastante revelador é o episódio envolvendo Jesus e um centurião romano da cidade de Cafarnaum. O milagre da cura do servo do centurião encontra-se narrado por Mateus, Lucas e João. Cada um dos evangelistas narra a história com diferentes nuances, cada uma delas com detalhes bastante reveladores e complementares.
No relato de Mateus (8.5-13), o comandante romano referiu-se a seu escravo empregando a palavra grega pais.  Esse é um termo bastante intrigante quanto ao seu sentido. A palavra grega pais tem vários significados: criança (Mateus 21.15), menino (Mateus 17.18) e servo (Mateus 8.6). Neste último caso, embora em um sentido pouco comum, pode ser traduzida e interpretada como um escravo jovem cujo proprietário mantém para favores sexuais. O termo pederastia[2] deriva do mesmo radical (paiderastia). As várias traduções suprimiram as possíveis conotações sexuais do termo utilizando as expressões “meu servo”, “meu empregado”. A versão ARA utilizou uma expressão um tanto curiosa: “meu rapaz” (v.8). Tais relações com conotações sexuais eram bastante comuns no Império Romano e, embora condenadas pela tradição judaico-cristã, a sociedade romana as tolerava. É fato que havia um componente abusivo em tais relações (vide nota sobre pederastia), mas este não parece ser o caso do centurião, já que Lucas acrescenta que o servo lhe era muito querido (Lucas 7.2), o que explica o esforço do comandante em buscar a ajuda de Jesus. Lucas também utilizou a palavra entimos, termo que denota, também, afetividade e intimidade. O fato de o centurião não se ter ausentado de casa durante a doença do servo (Lucas 7.6) também reforça a possível relação afetiva entre eles, pois tal gesto sugere cuidado e proteção.
O relato de Lucas se refere ao servo como doulos, termo mais específico que significa servo, porém sem uma conotação de escravidão[3]. Tal acepção reforça o conceito de que não se tratava de um escravo comum. O texto de João o coloca como filho do comandante, o que reforça os laços afetivos entre eles, já que um filho desfruta de tratamento e consideração superior à relação senhor/servo (João 4.46). Porém, é improvável que se trate de um filho, pois o termo doulos usado por Lucas descarta tal interpretação.
Lucas também afirma que ele havia construído uma sinagoga (7.5b), portanto o centurião era um homem rico e poderia substituir facilmente o servo a qualquer momento, bastaria comprar outro. As motivações do centurião são, antes, afetivas ou, mais provavelmente, homoafetivas. O mesmo texto indica que, possivelmente, era um homem temente a Deus, porque, além de construir a sinagoga, Lucas acrescenta que ele amava a nação de Israel (7.5a). Jesus conhecia o coração e a vida íntima daquele homem, entretanto, ele não condena sua relação, antes, elogia sua fé, curando seu servo. É interessante mencionar, como já vimos, que Jesus contrariou muitos preceitos da tradição religiosa e cultural judaica, quebrando paradigmas e revelando uma nova realidade para seus seguidores.



[1] Comandante militar cuja função era liderar uma centúria, ou seja, um grupo de cem homens. O centurião ocupava o terceiro lugar na hierarquia militar romana. (NA)
[2] A pederastia era um fenômeno cultural da antiga Grécia, com finalidade didático-pedagógica, consistindo em uma relação entre um homem mais velho (no grego erastes) e um jovem adolescente (eromenos). As famílias menos abastadas entregavam seus filhos aos cuidados do erastes, cuja função era a de ensinar ao jovem rapaz valores ligados à masculinidade e às funções do homem na cultura grega. Era comum, como parte dessa relação mestre/aprendiz, a prática da relação homogenital em que o jovem adolescente desempenhava um papel passivo e seu tutor, um papel ativo. Quando o jovem ultrapassava a adolescência, cuja marca era o nascimento de barba, a relação pederástica cessava. A cultura romana, entretanto, não absorveu tal costume, antes, muitos homens cultivaram o hábito do abuso sexual a jovens escravos. Essa prática abusiva ainda encontra suas raízes na antiga tradição da supremacia masculina do papel ativo, não sendo admitidas tais relações entre homens da mesma camada social, em virtude da noção de superioridade e inferioridade implícita nessas práticas. (NA)
[3] Dicionário Vine, CPAD, 2006, pág. 991.

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