![]() |
| Pastor Alexandre Feitosa apresentando seus dois primeiros trabalhos. |
A salvação é um ponto chave para
muitos cristãos LGBT, especialmente para aqueles que ainda acreditam que sua
constituição sexual os privará do reino de Deus. Há alguns dias, fui questionado
sobre a certeza de minha salvação, dos escritos deste Blog e dos meus livros. Aproveito este espaço para
relatar um pouco do meu testemunho e de que forma chegamos à convicção de que
nossa orientação sexual não é impedimento para a salvação.
Nasci na Assembleia de Deus, em
uma família tradicional e conservadora, moldada pela cultura patriarcal nordestina
e pela rigidez doutrinária típica dos assembleianos mais antigos. Tempo em que
ver TV era pecado, mulher usar calça era um absurdo, ser homossexual era uma
abominação e gays eram vistos como ameaça aos jovens, crianças e famílias
(nesse sentido as coisas não mudaram muito!)
Não foi fácil crescer nesse
contexto. Lembro-me do bullying
sofrido na escola (do ensino fundamental - séries iniciais - ao médio) e na rua
em que morava. Lembro-me dos olhares desconfiados na igreja e da pressão
familiar, especialmente de minha mãe que, na infância e na adolescência,
praticamente me obrigava a estar na igreja, certamente por perceber a
"ameaça" que me sondava. Para alguém que não sabia exatamente o que
estava acontecendo (falar sobre homossexualidade na igreja era um tabu ainda
maior que hoje), tudo era muito complexo e esconder-se (ou tentar) de si e dos
outros era o caminho menos difícil para trilhar. Eu amava aquela igreja (é
claro que ainda amo, especialmente os irmãos que me viram crescer, meu antigo
pastor, um homem muito usado por Deus e que lamentou muito quando não pude mais
congregar ali em virtude da homoafetividade! Sua consciência e submissão aos
dogmas eclesiais determinaram minha saída).
Eu era um jovem atuante. Realiza-me
ao cantar, ensinar na escola bíblica, atuar e escrever peças. O ano de 2015
marca exatamente os 10 anos de minha saída da Assembleia (embora, em muitos
aspectos, ela ainda não tenha saído de mim! Risos. São coisas que fazem parte
da nossa identidade). Tudo isso, entretanto, não foi o bastante para anular os
efeitos de minha luta interior. Lembro-me de ter enfrentado uma grande
instabilidade emocional no fim do ensino médio. Era um misto de tristeza e
desânimo. Quase reprovei o 3º ano. Fui aprovado pelo conselho de professores
pelo meu bom histórico como aluno. Hoje acredito que enfrentei uma depressão.
A partir de 1997, com o ingresso
na Universidade, as verdades sobre minha orientação sexual ficaram mais claras
e o anseio pela mudança se intensificou, afinal, era o início da vida adulta e
das responsabilidades por ela exigidas, como ter uma formação profissional, um
trabalho estável e, claro, um casamento heterossexual como consequência.
Além disso, eu era atormentado
pela ideia de não herdar o reino de Deus, de perder a minha salvação por ser
homossexual. Foram anos orando e pedindo que Deus mudasse aquela “natureza
pecaminosa”. Por que Ele não me ouvia? Eu não escolhera ser assim! Por que
seria condenado por algo que não planejei nem escolhi sentir!? Por que a igreja
não me enxergava? Por que o assunto era sempre tratado (o que era raro) para me
trazer mais sofrimento em vez de minimizá-lo? O texto bíblico que mais me
atormentava era 1ª Coríntios 6.9. Eu tinha consciência de que era afeminado. O bullying não era à toa, os apelidos - sempre
voltados para o gênero feminino - não eram sem razão. Eu ensinava na escola
bíblica que o pecado era fruto de escolha consciente, mas o texto paulino (pelo
menos como eu o lia naquela época), falava de um jeito de ser, não de uma
prática. Tudo isso me levava a um estado psicológico de profunda perturbação
mental. Na verdade eu pensava que, em algum momento, iria enlouquecer. Lembro-me de ter cogitado o suicídio como alternativa para o fim desse tormento.
Em 2003, à noite, em meu quarto,
fiz uma oração diferente ao Senhor. Em vez de pedir a mudança de minha
orientação sexual, fiz a Ele uma pergunta.
Meu coração estava muito contrito e quebrantado naquela noite. O
sofrimento tem essa virtude. Nele, normalmente, somos mais sensíveis e sinceros
diante de Deus. A um coração assim, Ele não resiste (Salmo 51.17). Perguntei a
Deus se Ele me amava da forma que eu era, já que a luta por mudança estava me
vencendo e minando minha fé e minha esperança. Além disso, o sentimento de
culpa invadia minha alma. Passaram-se os dias e me esqueci daquela oração. Deus,
porém, não se esqueceu!
Eu tinha o hábito de ler e ouvir
louvores antes de dormir. Certa noite, ao ler um livro, fui despertado pela
letra de uma canção que tocava naquele momento. Tratava-se do hino Deus Conosco, do grupo Voz da Verdade. Em
determinado momento, a letra ressoou diferente, havia poder naquelas palavras:
[Deus] cura os conflitos e as ansiedades, das marcas mais profundas te
dá a liberdade... Deus Conosco esteve aqui e sofreu como você, Deus foi um
homem [...] e por isso Ele te entende, e TE ACEITA ASSIM COMO TU ÉS, Ele te
ajuda, e te perdoa, tá dá uma paz, uma PAZ SEM CULPA...
Imediatamente me lembrei da
oração feita dias antes e percebi que, naquelas palavras em forma de canção,
havia uma resposta de Deus ao meu clamor! A mensagem da cruz possuía um poder
que eu ainda não havia entendido e tomado posse! Naquela noite, dormi como
nunca antes! Um fardo pesado saiu de minhas costas, o sentimento de culpa se
foi e, pela primeira vez durante anos, senti uma PAZ, uma paz que excedeu o meu
entendimento! (Filipenses 4.7). Nenhuma palavra humana foi capaz de produzir em
mim um efeito tão terapêutico! Naquela noite, experimentei o que Paulo chama de
testificação do Espírito Santo (Romanos 8.16). Senti que era filho de Deus! Mas
ainda havia muitas coisas para ocorrer. Aquele foi apenas o início de um lindo
processo de cura em minha vida! A Bíblia nos ensina que Deus, Aquele que começa
a boa obra, há de completá-la! (Filipenses 1.6)! Aleluia!
Acredito que Deus permitiu que
tudo isso acontecesse para que hoje eu pudesse entender o sofrimento dos LGBTs
cristãos (e não cristãos também) e, também, entender seu chamado sobre mim,
como um instrumento para levar as boas-novas de um Evangelho que não faz
acepção de pessoas.
O encontro com a Teologia Inclusiva
foi uma consequência desse processo. A partir de então, passei a orar e a
estudar as Escrituras, especialmente os textos usados para condenar a
homoafetividade. Sempre tinha o cuidado de pedir que o Espírito não me deixasse
enganado. Ter um novo encontro com sua Palavra era indispensável para mim. Em
2003, havia poucos textos disponíveis sobre Teologia Inclusiva. Os poucos que
havia não eram muito acessíveis (refiro-me a publicações raras, pouco
conhecidas na época), entretanto, o que havia serviu como o primeiro passo para
que, 7 anos depois, pudéssemos lançar nosso primeiro livro "Bíblia e
Homossexualidade: verdade e mitos."
A cada estudo (regado à oração e
temor), o Senhor confirmava em meu coração que Sua Palavra não condena a
homoafetividade, que Seu amor não me via segundo minha constituição sexual, mas
segundo sua graça.
Essas experiências me fizeram
crer que nossas interpretações das Escrituras (confirmadas por muitos teólogos
mundo afora) não são um equívoco, mas um instrumento de esclarecimento e
libertação para muitos LGBTs que se sentem excluídos do plano de salvação.
Graças a Deus, nossa missão tem gerado muitos frutos! É importante salientar
que a Teologia Inclusiva não é o centro de nossa pregação. Nosso foco é o
Evangelho, o amor de Deus e Sua graça. A TI é apenas um acessório necessário a
muitos LGBTs que acreditam que a Bíblia é um livro homofóbico e que estimula o
preconceito às minorias sexuais. Isso não é verdade. Homofóbicas são as
interpretações tradicionais, fundamentadas em uma leitura literal e superficial
das Escrituras.
A liberdade é uma conquista da
cruz, incompatível com o cativeiro emocional resultante da pregação religiosa
tradicional sobre a homossexualidade:
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam
firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. Gálatas 5.1
