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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Palavra aos Pais Cristãos de LGBTs


Em certo culto de minha igreja, Comunidade Athos, inclusiva, notei a presença de uma jovem senhora. Seu semblante logo me chamou a atenção: seu olhar era triste, traduzia certa frustração e um forte sentimento de impotência e incerteza, embora estivesse atenta ao culto como que a buscar um refrigério para seu coração. Durante as apresentações daqueles que estavam ali pela primeira vez, descobrimos que se tratava da mãe de um de nossos membros, cuja relação homoafetiva já dura mais de dois anos. Lembro-me de ter participado do culto apresentando um louvor. Ao fim da celebração, algo curioso aconteceu: aquela mulher procurou-me e me disse: “estou com muita vontade de abraçar você!”.  Ali, nos abraçamos, e, naquele abraço, pude perceber um sentimento de amor maternal. Talvez eu jamais entenda o significado daquele abraço, mas havia amor nele, pude sentir.

Senti que ela mulher cristã buscava respostas, buscava conhecer em que mundo seu filho vivia... Deus estaria ali? Deus ouviria e receberia aqueles gestos de oração, de adoração e louvor? Deus aprovaria os relacionamentos afetivos daquelas pessoas? Aquela busca por compreensão plena da condição de seu filho fez-me entender o quanto os pais podem sofrer pela condição homoafetiva de seus filhos. Foi uma experiência tocante.

É claro que em uma sociedade heteronormativa como a nossa, poucos são os pais que continuam a celebrar a vida de seus filhos ao saber que são gays ou lésbicas; poucos são capazes de enxergar o filho além de sua orientação sexual; poucos são os pais que os abraçam dizendo-lhes “Filho (a) está tudo bem! Nada mudou! Eu te amo da mesma forma!”; poucos são os pais que não se deprimem, que não se entristecem, que não pensam “o que os outros vão dizer, meu Deus?! O que fiz de errado?!” Tais reações e questionamentos são compreensíveis em virtude do contexto cristão em que vivemos.

Com os pais cristãos tais sentimentos são ainda mais intensos e destrutivos! Como entender que um filho, criado em um lar cristão, segundo os princípios bíblicos, tenha “se tornado” gay, lésbica, bissexual ou transgênero? Nesse ponto, em vez de ajudar, a Igreja reforça os conceitos tradicionais que imputam à homossexualidade um caráter doentio, degradante e até mesmo espiritual – sim! Falo de possessão demoníaca! É difícil a tais pais, conhecendo o caráter de seus filhos e a trajetória cristã de muitos, os aceitarem sob essa ótica! Entretanto, o que aprendem na igreja é forte demais para ser desconstruído de um momento para o outro. A maioria dos pais, infelizmente, age com intolerância e desamor, tornando ainda mais pesado o fardo que o filho carrega por ser diferente da maioria: alguns os expulsam de casa – último refúgio para tantos... Outros passam a tratá-los como seres estranhos, ovelhas negras ou a vergonha da família.

Sem respostas a oferecer – e, principalmente, sem o interesse em encontrá-las – a igreja escolhe a passividade e a violência simbólica, opta pelas velhas e ultrapassadas teorias da família desestruturada por pais ausentes, mães superprotetoras e abusos na infância, embora não sejam esses os casos da maioria das famílias cristãs que enfrentam problemas ocasionados pela homossexualidade de seus filhos. Na verdade, embora a Santa Inquisição tenha sido extinta, a igreja continua perpetuando uma postura que mata física, espiritual e emocionalmente, pais e seus filhos homossexuais, como se ambos fossem culpados.

Se pais e mães sofrem, não é diferente com seus filhos! Se filhos gays e lésbicas não encontram em casa um ambiente de acolhimento, compreensão e amor, certamente irão buscá-lo em outros lugares, que talvez os levem a um caminho sem volta. Absalão, filho de Davi, não encontrando em seu próprio lar a atenção e o cuidado de seu pai, rebelou-se, causando sua própria destruição.

Não é fácil para nenhum pai – ao menos para a maioria esmagadora – encarar a homossexualidade de um filho. Isso é fato. Mas é exatamente para isso que existe o amor! A resposta é e será sempre a mesma: o amor! O amor incondicional é capaz de passar por cima das diferenças tornando-as apenas um detalhe da diversidade humana, do homem e da mulher, criações divinas.

Mães e pais, acolham seus filhos, abracem-nos, amem-nos incondicionalmente! Essa é a vontade de Deus para todos quantos desejam cumprir seus mandamentos.

Sobre os sexualmente excluídos de sua época, leiam o que a Bíblia profetiza:


Porque assim diz o SENHOR a respeito dos eunucos, que guardam os meus sábados, e escolhem aquilo em que eu me agrado, e abraçam a minha aliança: Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará. Assim diz o Senhor DEUS, que congrega os dispersos de Israel: Ainda ajuntarei outros aos que já se lhe ajuntaram. Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Isaías 56:4-5, 7 e 8

A Bíblia ensina os pais a amarem seus filhos, e não impõe nenhuma condição para isso! Nada há nas Escrituras que condicione o amor! Elas chamam os filhos de herança do Senhor (Salmo 127.3), quer sejam homens, mulheres, brancos, negros, deficientes, homossexuais ou heterossexuais.

Não permitam que o mundo leve seus filhos! Não permitam que outros ofereçam-lhes o amor que primeiro deve ser ofertado dentro do lar! E, principalmente, não permitam que seus filhos, herança do Senhor, se percam por sua incapacidade de amar como Cristo ensinou! Se não possui tal capacidade, ore! Peça ao Pai em nome de Jesus, e Ele mudará seu coração! 

Aos filhos excluídos por seus pais em virtude de sua sexualidade, deixo Isaías 49.16 e 16, para meditação, que diz:

“Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas, ainda que esta viesse a esquecer-se dele, diz o Senhor – Eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas de minhas mãos te gravei...”

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A História de uma Família - Final - Superação


Certamente não teríamos permitido que ela tivesse um rapaz em seu quarto para passar a noite, mas, que dizer de uma moça? Sentíamos que não poderíamos proibi-la de ter sua amiga durante a noite, e que precisávamos oferecer-lhes um lugar seguro para explorarem sua relação, uma vez que não era seguro, no mundo externo, mostrarem afeição uma pela outra.

Em nossa família, sempre falamos abertamente sobre sexuali­dade em geral e de quão importante é respeitar a si e a outra pessoa. Tornar-se sexualmente ativo era uma decisão séria, por várias razões importantes. Para a maioria dos pais é difícil quando se descobre pela pri­meira vez que os filhos são sexualmente ativos. Quando Karla nos disse que estava tendo uma relação heterossexual aos 17 anos, tivemos a mesma dificuldade de quando Jo nos falou da sua relação homossexual em idade semelhante. Na verdade, fica­mos mais preocupados no caso de Karla por causa da possibili­dade de doenças sexualmente transmissíveis e pela possibilidade de gravidez (hoje reconhecemos - o que não era o caso naquela época - que todo mundo tem que se preservar ao fazer sexo, e que lésbicas também podem contrair doenças transmitidas por via sexual). Quando Karla começou a namorar rapazes, ela pro­testou por não lhe permitirmos ficar com um rapaz durante a noite, ao passo que tínhamos permitido ajo ficar com a amiga. Como é difícil ser pai e mãe nessas ocasiões!

Penso que a maioria dos pais visualiza um futuro heterosse­xual para seus filhos e filhas, e sonham com o que podem vir a ser e o que vão fazer. É importante colocar esses sonhos dentro de uma perspectiva, sendo vital aceitar nossos filhos e filhas pelo que são, não pelo que visualizamos para eles e para elas. Isso leva tempo e pode ser doloroso para pais e filhos.

Jo teve três outras relações e enfrentou consideráveis proble­mas, inclusive a rejeição dos pais de uma das suas namoradas, e uma relação abusiva e infeliz. Ela também teve muitas experiên­cias positivas e afirmadoras, tendo amadurecido para ser uma jovem mulher dedicada e que sabe se expressar abertamente. Des-de 1991, ela tem uma relação de compromisso e amor com uma mulher de nome Mary.

Jo se sente muito mais segura desde que a reforma da lei foi sancionada, tornando ilegal a discriminação com base na orien­tação sexual no emprego, moradia e no fornecimento de bens e serviços. Entretanto, continua existindo amplo preconceito e hos­tilidade contra Jo e contra as pessoas que ela conhece e ama.

Desde que deixou a escola e começou a trabalhar, Karla tam­bém tem apreciado o convívio com seus numerosos amigos na comunidade gay. Ela se sente à vontade numa vizinhança bastan­te diversificada na área central da cidade e acredita que sua vida seria muito mais pobre sem os seus amigos gays.

Por vezes discordamos de decisões tomadas por uma de nos­sas filhas, mas tentamos aceitar que as decisões são delas. Apre­ciamos a relação adulta que temos com elas, a qual continua melhorando, e gostamos de participar da vida delas.

Nossas preocupações iniciais sobre as reações das outras pes­soas quando Jo se assumisse abertamente como lésbica eram in­fundadas. A decisão de Jo de não se preocupar com o que pen­sam as outras pessoas nos permitiu ser totalmente abertos e rea­listas sobre nossa filha lésbica e nosso apoio às pessoas gays. Cons­tatamos que a reação mais comum de amigos e colegas a essa abertura também é de aceitação realista. Muitos têm manifesta­do que isso ajudou-os a resolver um assunto que tinha sido difí­cil como ideia, e que sua percepção da homossexualidade mu­dou no momento em que envolveu pessoas reais. Alguns pais em situações semelhantes foram ajudados a superar as dificulda­des por meio da nossa discussão franca e aberta sobre a jornada e as atitudes da nossa família.

Algumas pessoas adotam a posição de que amam e aceitam homossexuais, mas que a intimidade homossexual seria pecado. Dizem, por isso, que homossexuais deveriam ser celibatários. Acreditamos que a intimidade sexual é parte integrante da nossaexperiência humana, e que ninguém tem o direito de negá-la a outra pessoa. O celibato é apropriado quando for opção delibe­rada da pessoa, seja ela homossexual ou heterossexual.

A falta de aceitação e de amor para com homossexuais tem consequências trágicas. Por exemplo, baseados na experiência da nossa filha, acreditamos que, provavelmente, uma fração não conhecida, mas considerável, da alta taxa de suicídios entre jo­vens na Nova Zelândia Aotearoa é de jovens homossexuais que não têm a coragem de se assumir abertamente, por medo de serem rejeitados e excluídos de suas famílias.

Aquilo que escrevi aqui é sobre as filosofias e experiências dos membros da minha família. Embora cada pessoa e cada fa­mília seja única, os princípios e filosofias que desenvolvemos, profundamente baseados em nossa fé cristã e em nossa imagem de Deus e de Jesus, convencem-nos de que, como pais e mães, fizemos opções que enriqueceram e fortaleceram a vida da nos­sa família e a vida de cada um dos seus membros, com todas as nossas diferenças. Isso contrasta com famílias dilaceradas pela incapacidade de algumas pessoas em aceitarem as diferenças, inclusive a orientação sexual de outros membros da família.

Acreditamos que os problemas e as soluções estão, antes de mais nada, nas opções feitas pelo pai, pela mãe e demais membros da família. Se você opta por considerar a homossexualidade uma "abominação", um "pecado mortal" ou uma doença curável, você está escolhendo um caminho doloroso e destrutivo para a família e para seu integrante homossexual. Se você opta por aceitar e cele­brar a rica diversidade de atitudes, talentos, contribuições e orien­tação sexual de cada membro da família, isso pode levar a um enriquecimento positivo de cada um deles, fortalecendo a integra­ção familiar e fazendo com que o amor e a aceitação da família sejam estendidos a outros que foram excluídos das suas famílias.

Para nós, este é o caminho de Jesus. Não podemos conceber que Jesus afaste seu rosto de nenhuma das nossas duas filhas, nem de qualquer pessoa que conheçamos. Pelo contrário, vemos Jesus saudando a cada um de braços abertos e olhando direto nos olhos, comunicando seu amor e aceitação a todos. Nós só podemos procurar agir da mesma forma.
*Depoimento extraído do livro "Encarando Nossas Diferenças", 
do pastor presbiteriano Alan Brash.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A História de uma Família - Parte 2 - Adolescência



Ao voltar para a Nova Zelândia Aotearoa, aceitei novo em­prego como terapeuta de estimulação precoce para trabalhar com crianças que tinham múltiplas deficiências. Nossas filhas, que tinham opinião própria e não a escondiam, agora frequentavam o colégio estadual local. À medida que cresciam, os desafios fi­cavam mais difíceis. Esses anos de adolescência não foram fáceis e, por vezes, eu não me senti à altura da tarefa de educar duas filhas que pareciam dispostas a infringir todas as regras e a en­contrar seu próprio espaço na vida. O conhecimento de que es­ses anos são importantes para se livrar das amarras do lar e se rebelar contra os valores dos pais nos fazia continuar quando continuar ficava difícil. Amigos e parentes nos deram seu apoio e nos ajudaram a atravessar essa época difícil.

Tendo sido criados em famílias com valores cristãos relativa­mente tradicionais, Neil e eu, como muitos outros pais, tentamos passar nossos sistemas de valores a nossas filhas. Eu achei fácil falar com as meninas sobre questões sexuais e tinha a esperança de que elas não se tornassem sexualmente ativas muito cedo.

Jo se dava bem com meninos mais como companheiros para o esporte e música do que como "namorados". Contudo, ela parecia ter fortes amizades com suas amigas. Eu sabia que não era incomum para moças da sua idade experimentar apego emo­cional para com outras moças.

À medida que ela crescia comecei a suspeitar de que ela pode­ria ser lésbica. Neil e eu conversamos sobre isso e ponderamos se "era apenas uma fase" ou algo mais profundo. Achamos que o melhor que poderíamos fazer por ela seria criar um ambiente em casa que, sem traumas, eventualmente lhe permitisse revelar-se lésbica. Isso não quer dizer que não houve tristeza alguma da nossa parte no início, porque pensávamos que a vida seria bem mais difícil para ela e para nós se ela fosse lésbica. Sugeri a ela que mantivesse aberta a possibilidade de ter relações heterosse­xuais no futuro.

Jo se lembra de quando estava no colégio e ia ao cinema com amigas, que ela achava atraentes as estrelas, ao passo que suas amigas eram atraídas pelos astros. Em livros e na televisão ela também se identificava com as personagens femininas. Dando-se conta de que esta era uma reação diferente da de suas amigas e que ela se sentia atraída para o mesmo sexo, Jo foi à biblioteca para se informar sobre como o resto do mundo encarava a ho­mossexualidade. O que ela encontrou foram livros descrevendo homossexualidade como desvio, disfunção e anormalidade se­xuais. Ela ficou desapontada com isso, uma vez que se sentia bem da maneira como era. Sua "lógica do tratamento igual" lhe dizia que não está certo tratar algumas diferenças de uma manei­ra, e outras diferenças, de outra.

Em meados dos anos 80, a proposta parlamentar sobre a le­gislação de descriminalização da homossexualidade foi largamen-te discutida no país, e todas as noites na televisão e diariamente nos jornais, Jo via e ouvia debates sobre homossexualidade. Pela primeira vez ela ouviu termos depreciativos tipo "bicha", "fres­co" ou "veado". E a maior oposição à nova legislação estava vin­do de certas igrejas e organizações cristãs.

Jo não conseguia entender como é que pessoas das quais se espera que sejam as primeiras a dar atenção e mostrar compai­xão podiam falar sobre pessoas como ela como se fossem uma "abominação", quando ela não passava de uma mulher comum, atraída por mulheres, e não por homens. Ao tentar discutir com as pessoas, ela sentia que os argumentos delas eram ilógicos, mas tinha medo de reconhecer sua homossexualidade no ambiente do colégio por causa dos fortes sentimentos emocionais negati­vos expressos por alguns professores e colegas.

Como estudante, Jo era valorizada e apreciada por suas habi­lidades em críquete e música, por sua amabilidade e seu senso de humor. Ela ficou perplexa e preocupada quando precebeu que poderia perder tudo isso caso revelasse sua orientação.

Durante a nossa última visita aos Estados Unidos (1986/87) Jo teve um belo relacionamento com um rapaz de 15 anos, que eu esperava que se transformasse num "primeiro amor". Ele era um jovem encantador e eles se davam muito bem, mas eu notei que nem ele nem Jo queriam algo mais do que amizade. A reação dela era diferente daquilo que eu lembrava dos meus próprios sentimentos quando tinha 15 anos. "

Em seu grupo social na escola, Jo se deu conta de que um namorado era um passaporte para ser aceita e que as moças que não tinham namorados nunca iam a nenhum evento so­cial. Ela fez amizade com vários rapazes que lhe deram não só acesso ao cenário social, mas também foram bons companhei­ros e amigos.

Jo tem tido muitas amizades, de moças e rapazes, relacionan­do-se em nível intelectual, de uma forma aberta e afetuosa, com­partilhando ideias, música, humor e atividades. Ela também constatou que jovens gays, homens e mulheres, muitas, vezes, se dão bem e constituem relações seguras, não-sexuais, porém social­mente aceitáveis, que facilitam sua passagem pelos turbulentos anos da adolescência.

A primeira grande "gamação" de Jo por uma moça aconteceu quando ela tinha 16 anos. A moça tinha um namorado, e Jo saiu com o melhor amigo dele por vários meses a fim de poder ficar ao lado da amiga. Mas quando Jo lhe revelou seus sentimentos, a moça obviamente ficou muito embaraçada com a declaração, e a partir desse momento elas começaram a se afastar uma da ou­tra. Anos mais tarde, retomaram o contato e esqueceram suas diferenças anteriores.

Pouco depois disso, correu a fofoca pela escola de que Jo provavelmente era lésbica, mesmo que ela não tivesse tomado a decisão de assumi-lo abertamente. Karla, que frequentava o mes­mo colégio, várias vezes teve que ouvir comentários depreciati­vos sobre sua irmã e até sobre sua própria sexualidade. Em retrospecto, ela se lembra desse tempo como sendo muito difí­cil, mas, por assumir o que acreditava ser justo e razoável, adqui­riu bastante força e caráter pessoal.

Com quase 17 anos, Jo muitas vezes convidava uma amiga para passar a noite em nossa casa. Eu sabia que isto era parte importante de sua socialização, mas suspeitei que estivesse co­meçando uma relação de natureza sexual. Conforme me lem­bro, perguntei-lhe certa vez: "Será que você tem algo que precisa­ria me contar sobre sua relação com... ?" Jo respondeu que esta­va tendo uma relação com ela e que pensava ser lésbica. Jo não se lembra disso como uma experiência traumática. Ela se lem­bra, sim, de quando tinha cerca de 13 anos, e me perguntou: "Que você acharia se eu fosse lésbica?" (provavelmente durante uma discussão genérica sobre homossexualidade), e da minha reação de aceitação.

Estávamos num dilema...

(Continua nos próximos dias! Não perca a última parte dessa história!)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A História de uma Família - Parte 1- Infância


Gostaria de agradecer à minha família, Neil, Jolleen e Karla, por sua franqueza, honestidade e disposição de compartilhar uma parte muito privada das nossas vidas.

Neil e eu nos encontramos como estudantes num grupo de jovens batistas em 1965. Ambos fomos criados em comunida­des cristãs conservadoras. Enquanto Neil tinha uma abordagem questionadora, a forma como fui criada me levou a aceitar os valores cristãos tradicionais dos meus pais, que eram líderes em nossa igreja batista local.

Devido a meu grande interesse por crianças, tornei-me pro­fessora, especializando-me na educação de mudos. Isto me le­vou a Christchurch em 1965, onde conheci Neil, que estava es­tudando Física na universidade.

Durante nossos três anos de namoro, fizemos parte de um grupo de igreja muito estimulante em termos intelectuais, onde estudávamos a teologia mais recente. Comecei a questionar mui­tos ensinamentos batistas conservadores que antes eu considera­va absolutos, embora ambos preservássemos valores morais e éticos muito tradicionais, excluindo álcool, drogas e contato sexual antes do casamento. Preparando nosso matrimónio, le­mos muitos livros, frequentamos cursos e discutimos todos os tópicos possíveis. Compartilhávamos uma profunda preocupa­ção pela paz e justiça, participando das primeiras demonstra­ções antinucleares e apoiando o movimento anti-apartheid.

Nossas trajetórias teológicas pessoais nos levaram ao ponto em que ambos rejeitamos nossas imagens de Deus da infância. Para nós Deus não é externo e masculino, mas é a fonte da vida e do amor em todos nós.
Como cristãos acreditamos que todas as pessoas são feitas à imagem de Deus. Encaramos todas as pessoas como "pessoas inteiras". Está bem claro que Jesus enxergava além das aparên­cias externas da pessoa. As pessoas sentiam e sabiam do amor e da aceitação de Jesus, tanto faz se eram velhas ou jovens, paralíti­cas ou perfeitas, homens ou mulheres. Constatamos que é mais criativo e demonstra mais amor celebrar nossas diferenças e des­cobrir as ricas e diversificadas contribuições que cada um de nós pode dar para nossos relacionamentos e para a sociedade.

Neil e eu nos casamos em 1968. Continuei a ensinar crianças surdas e Neil começou a pesquisa para a tese de doutorado. Em 1971 nasceu Jolleen. Pouco depois nossa nova família se mudou para Montreal, onde participamos de atividades muito diversas e nos deparamos com grande variedade de atitudes. Participáva­mos ativamente de uma interessante congregação presbiteriana que estava tentando oferecer uma comunidade de apoio no cen­tro da cidade.

Depois de voltarmos para a Nova Zelândia Aotearoa, nasceu Karla em 1974. Para dar às nossas filhas uma infância rica e va­riada, foi muito importante para mim estar com elas nos anos de sua formação. Envolvi-me em sua pré-escola, um playcenter de famílias cooperativadas, e ampliei meu treinamento de modo a incluir o desenvolvimento infantil e educação dos pais em nível de pré-escola.

Na pré-escola Jolleen rapidamente passou a liderar atividades bastante agitadas, tomando a frente de um grupo de crianças em brincadeiras tipo aventura. Não me dei conta de que os meninos não sabiam que Jolleen era menina até certo dia em que ela usou um vestido e eles me perguntaram quem era essa nova menina. Inicialmente a rejeitaram, mas quando descobriram que suas brin­cadeiras não eram mais as mesmas sem ela, readmitiram-na no seu grupo. Isso mostra quão cedo pode começar a estereotipagem e o preconceito.

A partir dos três anos de idade, Jo manifestou o desejo de ter nascido menino. Ao ser perguntada por quê, disse que "queria ser forte e valente" e "somente meninos fazem coisas legais". Pas­samos bastante tempo mostrando-lhe que ela podia ser quem ela quisesse ser. Descobrimos que nenhum dos livros que estávamos lendo tinha um personagem principal que fosse uma menina envolvida em aventuras. Fizemos ampla pesquisa nas livrarias e não conseguimos encontrar sequer um livro assim.

A nossa família sempre foi tolerante e carinhosa para com todas as pessoas. Tendo trabalhado por muito tempo com crian­ças deficientes, eu já havia percebido como pode ser difícil ser diferente. Sempre que víamos algum tipo de injustiça, nós o mos­trávamos para as nossas filhas e pensávamos em soluções. Ambas têm consciência social muito bem desenvolvida.

Envolvi-me também no movimento feminista dos anos 70 e realmente gostava da atmosfera e das ideias que partiam do mo­vimento. Neil nunca se sentiu ameaçado por isso e concordava que existiam muitas injustiças impostas às mulheres no mundo. Durante esses anos, encontrei-me pela primeira vez com mulhe­res lésbicas. Depois de uma sensação de desconforto inicial, de­senvolvi uma compreensão e aceitação delas como mulheres como eu, cuja única diferença era sua orientação sexual.

Tivemos o privilégio de passar um ano nos Estados Unidos em 1980/81. Isso proporcionou a Jo e Karla uma experiência educacional totalmente diferente, e nossa família encontrou uma admirável congregação da United Church of Christ, que não jul­gava, mas integrava um grupo muito diversificado de pessoas que não pensavam necessariamente da mesma maneira, mas res­peitavam os pontos de vista das outras pessoas.

(Continua na próxima semana. Não perca!)
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