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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Jesus e a Homossexualidade: O Centurião Romano


           Como em toda a Bíblia, os escritores sacros não procuraram dar ênfase a outros povos e culturas. A identidade judaica é a principal marca cultural presente na Bíblia. O que extraímos de costumes e práticas de outras culturas e povos é conseguido graças a estudos comparativos, históricos e linguísticos. O presente artigo não pretende ser conclusivo, mas reflexivo. O caso do centurião de Cafarnaum pode ser o único registro bíblico entre Jesus e um homossexual. Episódio que mereceu menção nos Evangelhos em virtude da grande fé do militar romano. O texto foi extraído de nosso primeiro livro “Bíblia e Homossexualidade: verdade e mitos”. Boa leitura! 

O Centurião[1] de Cafarnaum
Por Alexandre Feitosa

Outro relato dos Evangelhos bastante revelador é o episódio envolvendo Jesus e um centurião romano da cidade de Cafarnaum. O milagre da cura do servo do centurião encontra-se narrado por Mateus, Lucas e João. Cada um dos evangelistas narra a história com diferentes nuances, cada uma delas com detalhes bastante reveladores e complementares.
No relato de Mateus (8.5-13), o comandante romano referiu-se a seu escravo empregando a palavra grega pais.  Esse é um termo bastante intrigante quanto ao seu sentido. A palavra grega pais tem vários significados: criança (Mateus 21.15), menino (Mateus 17.18) e servo (Mateus 8.6). Neste último caso, embora em um sentido pouco comum, pode ser traduzida e interpretada como um escravo jovem cujo proprietário mantém para favores sexuais. O termo pederastia[2] deriva do mesmo radical (paiderastia). As várias traduções suprimiram as possíveis conotações sexuais do termo utilizando as expressões “meu servo”, “meu empregado”. A versão ARA utilizou uma expressão um tanto curiosa: “meu rapaz” (v.8). Tais relações com conotações sexuais eram bastante comuns no Império Romano e, embora condenadas pela tradição judaico-cristã, a sociedade romana as tolerava. É fato que havia um componente abusivo em tais relações (vide nota sobre pederastia), mas este não parece ser o caso do centurião, já que Lucas acrescenta que o servo lhe era muito querido (Lucas 7.2), o que explica o esforço do comandante em buscar a ajuda de Jesus. Lucas também utilizou a palavra entimos, termo que denota, também, afetividade e intimidade. O fato de o centurião não se ter ausentado de casa durante a doença do servo (Lucas 7.6) também reforça a possível relação afetiva entre eles, pois tal gesto sugere cuidado e proteção.
O relato de Lucas se refere ao servo como doulos, termo mais específico que significa servo, porém sem uma conotação de escravidão[3]. Tal acepção reforça o conceito de que não se tratava de um escravo comum. O texto de João o coloca como filho do comandante, o que reforça os laços afetivos entre eles, já que um filho desfruta de tratamento e consideração superior à relação senhor/servo (João 4.46). Porém, é improvável que se trate de um filho, pois o termo doulos usado por Lucas descarta tal interpretação.
Lucas também afirma que ele havia construído uma sinagoga (7.5b), portanto o centurião era um homem rico e poderia substituir facilmente o servo a qualquer momento, bastaria comprar outro. As motivações do centurião são, antes, afetivas ou, mais provavelmente, homoafetivas. O mesmo texto indica que, possivelmente, era um homem temente a Deus, porque, além de construir a sinagoga, Lucas acrescenta que ele amava a nação de Israel (7.5a). Jesus conhecia o coração e a vida íntima daquele homem, entretanto, ele não condena sua relação, antes, elogia sua fé, curando seu servo. É interessante mencionar, como já vimos, que Jesus contrariou muitos preceitos da tradição religiosa e cultural judaica, quebrando paradigmas e revelando uma nova realidade para seus seguidores.



[1] Comandante militar cuja função era liderar uma centúria, ou seja, um grupo de cem homens. O centurião ocupava o terceiro lugar na hierarquia militar romana. (NA)
[2] A pederastia era um fenômeno cultural da antiga Grécia, com finalidade didático-pedagógica, consistindo em uma relação entre um homem mais velho (no grego erastes) e um jovem adolescente (eromenos). As famílias menos abastadas entregavam seus filhos aos cuidados do erastes, cuja função era a de ensinar ao jovem rapaz valores ligados à masculinidade e às funções do homem na cultura grega. Era comum, como parte dessa relação mestre/aprendiz, a prática da relação homogenital em que o jovem adolescente desempenhava um papel passivo e seu tutor, um papel ativo. Quando o jovem ultrapassava a adolescência, cuja marca era o nascimento de barba, a relação pederástica cessava. A cultura romana, entretanto, não absorveu tal costume, antes, muitos homens cultivaram o hábito do abuso sexual a jovens escravos. Essa prática abusiva ainda encontra suas raízes na antiga tradição da supremacia masculina do papel ativo, não sendo admitidas tais relações entre homens da mesma camada social, em virtude da noção de superioridade e inferioridade implícita nessas práticas. (NA)
[3] Dicionário Vine, CPAD, 2006, pág. 991.

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domingo, 30 de setembro de 2012

Conhecimento & Graça: Lições Bíblicas Inclusivas!



O ministério de Jesus baseava-se, primordialmente, no ensino. O ministério da Igreja não deve ser diferente. O ensino deve ser a prioridade da Igreja. O ministério de Paulo seguia o mesmo princípio. Ele recomenda ao jovem Timóteo:"Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a Palavra da verdade". 2ª Timóteo 2.15. O conhecimento é o segredo para não perecermos (Oséias 4.6). Tal conhecimento se adquire por meio do ensino bíblico, eficaz e bem fundamentado.  Há várias lições bíblicas de qualidade no mercado. Algumas, inclusive, adotadas por igrejas inclusivas. Entretanto, sabe-se que a homoafetividade, quando abordada em tais lições, está centrada na condenação. Faz-se necessário, portanto, produzir lições que tratem sobre a inclusão nas Escrituras. Essa necessidade deu à luz o primeiro volume da Série Conhecimento e Graça. A Série é composta por 12 lições, para um período médio de um trimestre. Em linguagem simples e acessível, para mestres e alunos, as lições abordam temas fundamentais para todo cristão inclusivo. Confira as lições abaixo. 

   Conhecimento & Graça
Introdução à Teologia Inclusiva
Bíblia & Homossexualidade

Lição 01 Conhecendo a Teologia Inclusiva (Um retorno ao Evangelho)

Lição 2 Conhecendo a Igreja Inclusiva (Tornando-se o corpo de Cristo)

Lição 3 Interpretando as Escrituras (Hermenêutica e Exegese)

Lição 4 Imagem e semelhança de Deus! (Estudo de Gênesis 1 e 2)

Lição 5 Sodoma: O grande mito! (Estudo de Gênesis 19)

Lição 6 Levítico: Um Chamado à Santidade (Estudo de Levítico 18.22 e 20.13)

Lição 7 Lembrados por Deus! (Estudo de Isaías 56.3-8)

Lição 8 A Idolatria e suas Consequências (Estudo de Romanos 1.26 e 27)

Lição 9 Efeminados e Sodomitas: Quem São Eles? (Estudo de 1ª Coríntios 6.9) 

Lição 10 A obra prima do criador! (A diversidade à luz da Bíblia)

Lição 11 Vivendo o amor a dois! (Homoafetividade à luz da Bíblia)

Lição 12 Vivendo em família! (Homoaparentalidade à luz da Bíblia) 




Conhecimento & Graça - Aluno
Autor: Alexandre Feitosa
Oásis Editora - 2012
70 páginas
Caderno de respostas incluso
Valor: R$ 7,90 

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Conhecimento & Graça - Mestre
84 páginas
Suplemento Didático e Teológico incluso
Valor: R$ 9,90 


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domingo, 2 de outubro de 2011

O Príncipe e o Pastor: a história de um amor incondicional

Cena da minissérie Rei Davi, exibida pela Record em 2012

Por Alexandre Feitosa

Dois jovens: um príncipe e um belo pastor de ovelhas. O que poderia haver em comum entre dois homens tão diferentes? A Bíblia responde: um sentimento de amor tão intenso que em toda a Escritura não se vê nada parecido, nem entre um homem e uma mulher. Como assim? A Bíblia descreve tal amor entre dois homens? A resposta é: “sim”. Estamos falando do príncipe Jônatas, filho do rei Saul e do pastor Davi, filho mais novo de Jessé, um fazendeiro idoso de Belém.

Um dos assuntos mais delicados para a Teologia em si é o envolvimento que houve entre Davi e Jônatas. De um lado, temos defensores de que houve, sim, um relacionamento entre eles; do outro lado, temos estudiosos que preferem acreditar que afirmar isso é completamente descabido – tais teólogos, claro, são maioria. Eu, Alexandre Feitosa, prefiro não afirmar nem uma coisa nem outra. Prefiro colocar-me em uma postura mais equilibrada, influenciada, portanto, pelas duas posições: a favorável e a contrária. Como assim, Alexandre? Para quem leu meu primeiro livro, Bíblia e homossexualidade, minha posição está bastante clara. Aos demais explicarei resumidamente neste artigo. Não pretendo que minhas conclusões sejam definitivas ou a verdade absoluta. De forma alguma! Bom, mas a que conclusão cheguei? Eu acredito que houve, sim, um sentimento de amor intenso entre Davi e Jônatas bem como gestos de carinho intenso, porém, sem configurar um relacionamento homoafetivo tal qual conhecemos.

Tenho defendido, ao longo dos meus estudos e escritos, que o conceito de homoafetividade era desconhecido da cultura bíblica judaica. Tal fato explica o silêncio da Bíblia com relação a tais relacionamentos – isso não quer dizer que não havia homossexuais! (Havia, sem dúvida, o que não havia era um conceito complexo de orientação sexual). Portanto, se afirmamos que Davi e Jônatas viveram um relacionamento homoafetivo, seria incoerente ou uma exceção à regra.

A Teologia Inclusiva tem sido bastante acusada de injetar na Bíblia o que ela não diz. A exegese consiste em utilizar métodos legítimos de interpretação bíblica a fim de se chegar ao sentido original do texto em estudo. A eisegese consiste em se fazer exatamente o contrário, ou seja, utilizar métodos duvidosos a fim de fazer a Bíblia dizer o que nós queremos. A história de Davi e Jônatas é um prato cheio para os críticos, afinal, embora a Bíblia revele um forte amor entre eles, não é clara em revelar um relacionamento afetivo em sua totalidade. Por isso, cautela é bom com relação a Davi e Jônatas, afinal, é sabido por todos que uma das grandes fraquezas de Davi eram as mulheres. Então, no máximo, o que podemos afirmar, ou melhor, conjeturar sobre ele, é que era bissexual. Praticamente o mesmo pode-se afirmar acerca de Jônatas, que fora casado e tinha um filho: Mefibosete.

De fato, há textos em que nossos protagonistas, Davi e Jônatas, colocam os teólogos tradicionais em uma situação bastante complicada! Os mesmos textos, entretanto, são vistos com grande triunfo por alguns defensores da Teologia Inclusiva, pois seria a prova bíblica de que Deus aprova os relacionamentos homoafetivos, afinal, dentre os vários pecados cometidos por Davi registrados nas Escrituras, nada está relacionado ao seu envolvimento com Jônatas. Além disso, a Bíblia o descreve como um homem segundo o coração de Deus (Atos 13.22).

A saia é tão justa para alguns eruditos, que muitas traduções bíblicas suavizaram ao máximo toda e qualquer evidência do amor que nutriam um pelo outro, especialmente o amor de Jônatas, forçando a Bíblia a dizer o que os originais não dizem! Comparemos, por exemplo, alguns textos em diferentes traduções. Tomamos como base de comparação, um texto mais literal. Escolhemos a versão Revista e Atualizada de Almeida. Compare as partes em negrito:






1 Samuel 18.01

Almeida Revista e Atualizada - 2000
“Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma.”

Bíblia Sagrada – Editora Vozes – 2005
“Quando Davi terminou de falar com Saul, Jônatas sentiu uma profunda amizade por Davi. Jônatas começou a gostar de Davi como de si mesmo.”

Nova Versão Internacional (NVI) – 2004
“Depois dessa conversa de Davi com Saul, surgiu tão grande amizade entre Jônatas e Davi que Jônatas tornou-se seu melhor amigo.”

Percebem como algumas edições modernas têm mutilado o texto original, tirando toda sua beleza, sentimento e poesia? Duas almas que se ligam tornaram-se amizade, e amar como à própria alma tornou-se gostar. É lamentável que um texto tão belo e profundo tenha sido barbaramente modificado! Mas não para por aí! Tem mais!

1 Samuel 20.41

Revista e Atualizada – 2000
“Indo-se o rapaz, levantou-se Davi do lado do sul e prostrou-se rosto em terra três vezes; e beijaram-se um ao outro e choraram juntos; Davi, porém, muito mais.”

Edição Pastoral - 2008
“Quando o servo foi embora, Davi saiu do esconderijo, caiu com o rosto por terra e se prostrou três vezes. Em seguida os dois se abraçaram e choraram bastante.”

Bíblia Vozes - 2005
“Quando o rapaz tinha ido embora, Davi se levantou do seu esconderijo do lado sul, caiu com o rosto por terra, prostrando-se três vezes; em seguida abraçaram-se e ambos choraram, sobretudo Davi.”

Perceberam como as duas últimas versões, bastante recentes, trocam o verbo beijar por abraçar?

Alguns podem até dizer que o beijo entre homens era bastante comum na cultura judaica. Sim, de fato era. Entretanto, não há nenhum relato de beijo recíproco entre homens! É, pode acreditar!

O último texto a compararmos está no segundo livro de Samuel, capítulo 1, versículo 26:

Revista e Atualizada – 2000
“Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; tu eras amabilíssimo para comigo! Excepcional era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres”.

Nova Versão Internacional (NVI) – 2004
“Como estou triste por você, Jônatas, meu irmão! Como eu lhe queria bem. Sua amizade era, para mim, mais preciosa que o amor das mulheres”.

O mais interessante é que o amor de Jônatas virou amizade na NVI, mas o amor das mulheres permaneceu como amor mesmo, embora no texto bíblico original, o substantivo hebraico seja o mesmo nos dois casos! Sem comentários sobre A NVI, pois já é velha conhecida nossa, uma das Bíblias que mais deturpam o texto sagrado!

Outras Bíblias têm seguido os mesmos passos da NVI, vejamos:

Almeida Século XXI – 2008
“Estou angustiado por ti, meu irmão Jônatas; tu eras muito querido a mim! Tua amizade era mais preciosa para mim do que o amor de mulheres”.

Bíblia Vozes - 2005
“Quanta dor sinto por ti, Jônatas, meu irmão! Quanto me eras caro e querido! Tua amizade me era mais maravilhosa que o amor de mulheres.”


Bom, pelo menos está claro quem está fazendo eisegese!

É bastante suspeita a atitude dos tradutores envolvidos nas versões citadas: ou eles creem no amor de Jônatas e Davi e querem eliminar isso, ou forçaram suas “bíblias” a dizer o que de fato eles pensam, ou seja, que tudo aquilo não passou de uma forte amizade.

De qualquer forma, após a dura despedida descrita em 1º Samuel 20.41, Davi e Jônatas não mais se encontrariam – o que reforça que não houve um relacionamento homoafetivo de fato, entretanto, tal sentimento permaneceu vivo, afinal, por amor de Jônatas, Davi acolheu seu único filho, Mefibosete, dando-lhe um lugar de honra quando assumiu o trono de Israel! Uma das mais lindas histórias de amor descritas nas Escrituras, amor incondicional, que sobreviveu à morte, certamente, um exemplo para qualquer relacionamento, seja de que ordem for.

Quer aprofundar esse estudo? Não deixe de ler o livro “Bíblia homossexualidade: verdade e mitos”.


sábado, 9 de julho de 2011

Conversa franca sobre Romanos 1

Para leer este artículo en español, pulsa AQUI.
Por Alexandre Feitosa

Quando um cristão tradicional quer acusar um cristão membro de uma igreja inclusiva, o repertório é sempre o mesmo: uma pequena lista de textos bíblicos em que atos homogenitais (entre homens, apenas) são condenados: Levítico 18.22; 20.13; 1ª Coríntios 6.9 e 1ª Timóteo 1.10. Com o nascimento de mais uma igreja inclusiva – Comunidade Cidade de Refúgio – liderada pelo casal de pastoras Lanna Holder e Rosânia Rocha, as acusações se multiplicaram. Entretanto, os acusadores cometeram um grave erro ao aplicar tais textos às mulheres, pois nenhum deles faz referência ao sexo entre elas. Nem mesmo Romanos 1.26. Como assim, pastor Alexandre? Paulo foi tão claro!

Bom, a clareza depende de como lemos e interpretamos determinado texto. Uma das regras da Hermenêutica é comparar versículos paralelos – ou seja, que tratem do mesmo assunto – para esclarecer termos obscuros. É aí que os acusadores ficam encurralados! A condenação do sexo entre homens ainda encontra certo número de textos para embasá-la. Mas o que dizer do sexo entre mulheres? Além de Romanos 1.26, nada mais há nas Escrituras que se refira a ele. Se Paulo condena aí a orientação homossexual, comum a homens e mulheres, por que não fez o mesmo em outros textos? Uma coisa, porém deve ficar muito clara: as razões do sexo homogenital masculino condenado na Bíblia não são as mesmas de hoje. Mas esse é um assunto para outro artigo!

É interessante notar como os acusadores esquecem-se por completo do contexto de seus versículos-bala! Ignoram as regras da hermenêutica e da exegese e depois nos acusam de manipular as Escrituras!  Bom, mas vamos ao texto em questão:

26 - Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
27 - E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

Para analisar corretamente esse texto, precisamos de dois princípios da hermenêutica e da exegese: o contexto textual e sociocultural.

Quando analisamos o contexto textual, percebemos que os versículos 26 e 27 de Romanos 1 não são independentes, mas têm o seu conteúdo específico iniciado a partir do versículo 18: a impiedade dos homens e a supremacia de Deus em relação à Criação. A idolatria é um dos temas centrais, o que fica evidente entre os versículos 23 a 25 (Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém). O Versículo 26 inicia-se com a expressão por isso, ou seja, explica porque aqueles atos antinaturais foram cometidos.

A idólatra Roma servia a muitos deuses, bem como cultuava o hedonismo - o prazer como bem supremo. Paulo faz uma análise das consequências dessa realidade tão abominável diante de Deus. Uma das práticas comuns aos cultos romanos era a prostituição cultual. Ali, homens heterossexuais se envolviam em rituais homossexuais, o que justifica a expressão: deixaram a relação natural com a mulher. Ou seja, homens heterossexuais, trocaram uma conduta sexual que lhes era natural por outra, contrária à sua natureza, ou seja, uma prática homossexual, simplesmente como fonte de prazer e de expressão ritualística.

Quanto ao sexo entre mulheres, o texto de Paulo não é definitivo em afirmá-lo, havendo, inclusive, quem acredite que o Apóstolo mencionava o sexo anal heterossexual. Essa interpretação perdurou durante toda a Idade Média. Tudo indica, porém, que o texto esteja fazendo referência a duas cerimônias comuns entre os romanos daquela época: o culto a Bona Dea – restrito às mulheres, inclusive com a prática de cópula com animais; e o culto a Baco, ou bacanais, em que o incesto era parte dos ritos de iniciação. Todas essas práticas eram contrárias à natureza segundo o pensamento judaico, para o qual a função principal do sexo era a procriação.

O texto faz menção a relações contrárias à natureza praticadas em um contexto bastante específico: a adoração de ídolos. Nenhuma ideia há que reflita as relações homoafetivas e monogâmicas da sociedade atual.

O texto fala de homens e mulheres que praticaram perversões sexuais específicas, contrárias a sua natureza. Homens de orientação homossexual nunca deixaram a relação natural com a mulher (v.27), simplesmente porque isso nunca lhes foi natural! O sexo entre mulheres não está em questão visto que a penetração e a semente (exclusiva dos machos, segundo a visão da época) eram necessárias para que um ato fosse considerado de natureza sexual.

Alguns leitores podem estar pensando: “que nada, essa interpretação é forçada! Vocês estão deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas práticas homossexuais!” Bom, para provar que essa análise não é invenção de teólogos gays, vamos ver o que diz o comentário da Bíblia de Estudo Dake, CPAD, sobre esse texto:

“... Esse tipo de idolatria tem sido a raiz de toda imoralidade abominável dos pagãos. Os ídolos têm sido os padroeiros da licenciosidade (vv. 23-32). Quando davam forma humana a seus deuses, eles os dotavam de paixões e desejos e os representavam como escravos de infames perversões sexuais e como possuidores de poderes ilimitados de satisfação sexual. Deus permitiu que eles se entregassem a pecados homossexuais e perversões desse tipo.[1]

Entretanto, não faltam tentativas de alterar o que Paulo escreveu. Vejam como a Nova Bíblia Viva, Editora Mundo Cristão, Edição 2011, traduziu Romanos 1.26:

“Esta é a razão pela qual Deus os entregou a paixões pecaminosas, a tal ponto que até suas mulheres se voltaram contra o plano natural que Deus tinha para elas e cederam aos pecados sexuais entre elas mesmas.”

Bom, diante de tudo o que expusemos, deixo uma pergunta aos nossos acusadores: Quem está deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas crenças?

Quer aprofundar esse estudo? Não deixe de ler o livro "Bíblia e homossexualidade: verdade e mitos". Clique AQUI e saiba como!
 

[1] Bíblia de Estudo Dake, CPAD, 2009, pág. 1799.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Bíblia e os Perigos da Interpretação Literal!

Vejamos alguns dos absurdos - que vão desde a discriminação a assassinatos - que a interpretação literalista e fundamentalista das Escrituras pode gerar. Há muitos outros exemplos, listaremos apenas 5 deles. Para ver as imagens em tamanho maior, basta clicar sobre elas.




















Veja os detalhes das afirmações absurdas do 
Pastor Marco Feliciano, clicando AQUI.
Sobre a discriminação racial na Igreja,
leia um excelente artigo AQUI.

Na próxima postagem, veremos por que
nem os cristãos heterossexuais cumprem
os mandamentos do Gênesis sobre a vida conjugal! Não Perca!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Lançamento à venda!




Prêmio do Amor é um livro original, ousado, desafiador! A título de introdução, os primeiros capítulos dedicam-se a revelar por que as Escrituras são a fonte principal do fazer teológico inclusivo. Embora as relações afetivas e o sexo sejam o assunto principal, o livro traz uma excelente reflexão bíblica quanto ao caráter inclusivo da Bíblia, desde o Antigo Testamento. Portanto, este trabalho traça uma linha teológica que conduzirá à seguinte conclusão: na casa de Deus (Igreja) há lugar para todos; a casa de Deus deve refletir a diversidade da criação divina.   
      Tema ainda pouco explorado, o sexo nas relações homoafetivas é o grande foco deste trabalho. O autor lança mão dos princípios da Teologia Inclusiva para abordar, de maneira clara e objetiva, a expressão sexual nos relacionamentos homoafetivos com base nas ciências sociais, na moral cristã e nos fundamentos bíblicos. Tratando de temas como masturbação, relacionamento aberto, teologia e homoafetividade, celibato, papéis sexuais, entre outros, este livro é inovador em muitos sentidos. Confira os capítulos:

Introdução
Teste – Sua visão sobre sexo
1 - Teologia inclusiva e homossexualidade
2 - Homossexualidade e Celibato
3 - O que é homoafetividade?
4 - Relações homoafetivas e princípios bíblicos
5 - O Sexo homoafetivo e a Bíblia
6 - Princípios Bíblicos e Homoafetividade
7 - Vida sexual saudável
8 - Natural versus Antinatural
9 - Sexo oral e princípios bíblicos
10 - Sexo anal e fundamentos bíblicos
11 - Homossexualidade e papéis sexuais
12 - Homossexualidade e Promiscuidade
13 - A Bíblia condena a masturbação?
14 - Fantasias Sexuais: é saudável tê-las?
15 - Distorções às Relações Estáveis
16 - Transtornos sexuais
17 - Pecados sexuais descritos na Bíblia
18 - Perguntas frequentes
Dicas de leitura


    
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Eunuquismo e homossexualidade: uma releitura bíblica

O ator André di Mauro como o eunuco Hegai na minissérie A história de Ester,
exibida pela Record: conotação homossexual evidente.

Por Alexandre Feitosa
É consenso que a Bíblia não apresenta o conceito de homossexualidade tal qual o conhecemos. Entretanto, há relances que aludem implicitamente aos homossexuais nas Escrituras. Essa constatação é possível na figura dos eunucos. Não estou afirmando que o eunuquismo e a homossexualidade são termos sinônimos. Esses homens ocupam uma posição especial em Isaías 56, representando a classe dos sexualmente excluídos na Antiga Aliança, entretanto, o profeta os destina a uma promessa grandiosa de inclusão ao povo de Deus.

A figura do eunuco é decisiva nas palavras de Jesus no relato de Mateus 19.12. Visto que o único modelo de casamento da época era heterossexual, é óbvio que Cristo não poderia fazer qualquer referência a relações homoafetivas. A noção de orientação sexual na cultura judaica inexistia, Cristo usou um conceito que para nós seria rudimentar, mas que se relaciona diretamente à homossexualidade. Como assim?

Embora a história ateste alguns casos de relações homossexuais envolvendo eunucos, o conceito geral da Antiguidade Judaica era o de que eunucos não se casavam. Isso se relacionava intimamente à sua função primordial, não única: a guarda das mulheres. Cristo separa muito bem os tipos de eunucos: os de nascença; os feitos pelos homens; e os que se fazem eunucos pelo reino. A nós interessa o primeiro tipo: o eunuco de nascença.

A análise do termo usado por Cristo deve ser feita de acordo com o contexto sociocultural e linguístico da época. Os judeus conheciam dois tipos de eunucos de nascença, chamados especificamente de “eunucos do sol”. Eram assim chamados, pois nunca viram o sol sob outra condição, a não ser a de eunucos. Os eunucos do sol podiam ser homens com problemas congênitos ou homens sem libido que os impossibilitava ao casamento com uma mulher.

Segundo o Talmude, tais eunucos se caracterizavam pelos modos frágeis e femininos. Clemente de Alexandria, um dos pais da Igreja (século II), reafirmou que a visão judaica sobre tais eunucos os associava a homens que naturalmente se afastavam das mulheres. Esse “afastar-se naturalmente das mulheres” não indica apenas a falta de libido puramente, mas indica a falta de libido POR MULHERES. O contexto da fala de Jesus é o casamento heterossexual. O Novo Testamento judaico (Editora Vida) se refere aos eunucos de nascença como homens que nasceram sem o desejo deste casamento, ou seja, entre homem e mulher. Parece-me bastante claro que os eunucos do sol também incluíssem os homossexuais, ou melhor, se refiram a eles já que estes são bem mais numerosos que homens congenitamente incapazes. Sendo assim, a homossexualidade torna-se inata e isenta de pecado. Conclusão a que muitas igrejas já chegaram oficialmente, como é caso da Igreja Católica. Sabe-se que a homossexualidade pode ter vários fatores em sua constituição, porém, a experiência dos homossexuais a situam ainda na infância, quando não há condição de escolhas sexuais conscientes. Embora a ciência apresente apenas indícios da origem da homossexualidade, o conceito de Cristo é o que deve prevalecer para o cristão homoafetivo.

Como percebemos, Cristo falou sim sobre pessoas homossexuais, não com a mesma complexidade que conhecemos hoje, claro, o mais importante é que ele não atribuiu nenhum caráter pecaminoso à condição sexual de tais pessoas.

Mais detalhes sobre o tema estão disponíveis no livro Bíblia e homossexualidade: verdade e mitos.
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