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sábado, 18 de junho de 2016

Pastor Lança Livro Contra a Homofobia Religiosa

A campanha Jesus cura a homofobia foi idealizada pelo pastor batista José Barbosa Júnior

Autor desafia leituras conservadoras da Bíblia, lançando um novo olhar sobre o que ela, de fato, diz sobre as minorias sexuais.



O pastor Alexandre Feitosa acaba de concluir mais uma obra literária: Teologia Inclusiva: fundamentos, métodos, história e conquistas. A obra é mais um lançamento da Oásis Editora, especializada em publicações teológicas voltadas para o público LGBT. O livro é o sexto trabalho do Pastor, que estreou em 2010 com a bem sucedida obra Bíblia e Homossexualidade: verdade e mitos, que está a caminho da terceira edição. Sua obra é marcada pela leitura histórico-crítica das Escrituras, método que contextualiza os versículos, interpretando a mensagem sob a luz dos aspectos culturais, históricos, religiosos e sociais da época bíblica. A leitura histórico-crítica da Bíblia lança luz sobre os textos que supostamente condenam as minorias sexuais. Essa abordagem permite concluir que os conceitos de orientação sexual, homoafetividade e identidade de gênero estão ausentes dos textos bíblicos. O lançamento nacional do livro ocorrerá neste sábado, 18/06, na Comunidade Athos Brasília.


Kibook - Qual o tema desse novo trabalho?
AF - Seguindo uma linha semelhante à das obras anteriores, este novo trabalho propõe reflexões bíblicas sobre as minorias excluídas e segregadas por conceitos religiosos. A partir das Escrituras e, especialmente a partir de Cristo e da Igreja Primitiva, somos levados a compreender que a Bíblia está longe de ser um livro homofóbico, como muitos acreditam. O tema deste trabalho é a inclusão das minorias sexuais sob a perspectiva de Cristo e das primeiras comunidades cristãs. Uma análise minuciosa e livre de ideologias conduzirá o leitor da Bíblia, inevitavelmente, a um novo olhar, livre de preconceitos sobre aqueles que, tradicionalmente, fomos levados a discriminar. Nunca, no Brasil e no mundo, os direitos da comunidade LGBT se expandiram tanto, por outro lado, em proporção semelhante, em nenhum outro momento o preconceito e a discriminação contra essa comunidade vieram à tona com tanta intensidade.


Kibook - Qual a relevância desse livro para o cenário atual?
AF – A importância desse trabalho está em seu papel esclarecedor. Todo preconceito é gerado pela falta de informações. É necessário quebrar o ciclo do preconceito. O preconceito precede a discriminação. Os crimes de ódio, como o praticado no último domingo em Orlando, são motivados pelo preconceito. No Brasil, a realidade é ainda mais triste. Pesquisas do Grupo Gay da Bahia (GGB) indicam que um LGBT é morto a cada 26 horas. As estatísticas são alarmantes. Em 2015, 318 LGBTs foram assassinados. Esses dados colocam o Brasil no topo dos crimes de ódio quando o assunto é violência contra lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Ao quebrar o ciclo do preconceito, a violência deixa de existir. O livro tem um caráter informativo, formativo e reflexivo. Aliamos informação e reflexão nessa obra, tendo como ponto de partida o ministério de Jesus Cristo e os princípios do Evangelho propagados por Ele e pela Igreja Primitiva. As reflexões propostas nessa obra envolvem basicamente a inclusão de excluídos e marginalizados por questões religiosas. Abordamos desde a inclusão da mulher à inclusão das minorias sexuais, representadas pela figura dos eunucos. Se a exclusão das minorias sexuais nasce de uma interpretação equivocada da Bíblia, deve ser a partir da mesma Bíblia que a inclusão deve nascer. 


Kibook - O livro já está à venda há mais de um mês. Como tem sido a receptividade da obra?
AF – Graças a Deus nossas expectativas quanto à recepção da obra têm sido superadas. Já vendemos metade da primeira tiragem e estamos providenciando uma segunda tiragem, maior que a primeira, pois já temos lançamentos marcados em outras capitais. Tenho recebido umfeedback bastante positivo das pessoas que já adquiriram o livro, o que nos motiva a continuar escrevendo novos trabalhos que contribuam para a inclusão das minorias sexuais à Igreja, bem como para o combate do preconceito a essas minorias.


Kibook - Para concluir, uma frase que resuma o livro:
AF – A frase que resume o livro está na Bíblia, no livro de Atos, capítulo 10, versículo 34:Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas. Esse princípio bíblico confirma todas as reflexões que construímos com base nos relatos dos Evangelhos e nos demais livros do Novo Testamento. Em cada relato analisado, essa verdade fica evidente. Pessoas antes excluídas pela religião passam a caminhar lado a lado com Cristo. De posse dessa verdade valiosa levamos a própria comunidade LGBT a compreender que Deus não exige mudança de sua constituição sexual. As minorias sexuais são aceitas por Deus, pois a diversidade é parte de Seu trabalho criativo. O livro nos leva a encarar a comunidade LGBT sob a perspectiva de Cristo, quebrando o ciclo do preconceito e da violência, promovendo um entendimento gracioso das Escrituras e uma cultura de paz.



Um pouco mais sobre o autor: Alexandre Feitosa é brasiliense, graduado em língua portuguesa, pastor e professor. Desde 2006, dedica-se ao estudo da Teologia Inclusiva e a palestras sobre o assunto. É autor das seguintes obras: Bíblia e Homossexualidade: verdade e mitos (2010), O Prêmio do amor (2011), A Igreja Trans(2012), Quem está manipulando a Bíblia? (2013), Lições Bíblicas Conhecimento & Graça (2014). É membro da Comunidade Athos de Brasília, uma igreja protestante inclusiva. 





Lançamento do livro: 18 de junho de 2016 a partir das 19h30 na Comunidade Athos Brasília – SDS – Conic – Edifício Eldorado, Entrada B, Subsolo, Sala 17.

EspecificaçõesTeologia Inclusiva: Fundamentos, Métodos, História, Conquistas – Oásis Editora, Brasília, 2016, 102 páginas. 




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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Afinal, há homofobia na igreja?


Por Alexandre Feitosa

Desde que o projeto de Lei 122/2006 ganhou fama, principalmente pela polêmica gerada, o termo homofobia e seus derivados, embora já existissem, tornaram-se populares, também, no discurso dos cristãos em geral. As acusações são recíprocas entre a militância LGBT e os líderes cristãos. A Militância acusa a Igreja de ser homófoba e a Igreja acusa a militância de reivindicar um tratamento privilegiado aos gays em detrimento da maioria da população. Analisar o propósito do PCL 122 não é o objetivo deste artigo, pois já fizemos isso em textos anteriores. Nosso objetivo é analisar se há ou não homofobia nas igrejas convencionais. Afinal, o que é homofobia? Seria apenas uma forma patológica de ódio irracional e extremo aos homossexuais a ponto de causar agressão e morte ou pode, também, corresponder a uma postura – ainda que de omissão – por parte da sociedade ou mesmo da Igreja?

Se entendermos a homofobia como medo irracional quanto à homossexualidade, não é tão descabida a afirmação de que a Igreja, em geral, é homófoba. Por quê? Primeiro pela falta de espaço que o assunto possui ali. Há medo, temor e receio em se abordar aberta e francamente o assunto, sem o viés da condenação teológica. A posição da Igreja quanto à homossexualidade revela-se unilateral, ou seja, as interpretações literais bíblicas direcionam o discurso, centrado, sempre, na condenação. Essa “clareza” bíblica sobre a homossexualidade (lembremo-nos sempre de que a Bíblia apresenta atos homossexuais, não o conceito de homossexualidade). Há uma recusa em se conhecer a fundo o assunto, acreditando-se que a Bíblia já oferece o suficiente para entendê-lo e julgá-lo. Enquanto isso, no seio da Igreja, cristãos homossexuais – em segredo – anseiam por respostas e, principalmente, por uma atenção especial ou, ao menos, um pequeno espaço, que revele, de fato, o amor que a igreja tanto prega. Essa espera é angustiante e, com frequência, acaba por afastar os cristãos gays do rebanho. Ao ignorar o assunto, recusando-se a conhecê-lo ou oferecendo apenas uma visão condenatória, a postura da igreja acaba por ser, ainda que em menor grau, homofóbica, já que se baseia na ignorância e no medo em abordar o tema. A falta de conhecimento sobre o assunto gera a irracionalidade, a irracionalidade gera o temor em falar abertamente sobre a homossexualidade. Não é à toa que grande parte dos cristãos homossexuais prefere deixar a Igreja a tornar pública sua condição, bem como o seu dilema e as suas lutas, quase sempre solitárias. Se a Igreja não lhes parece um lugar acolhedor, um lugar de amigos sinceros e interessados em sua dor, a melhor postura é sair dali ou viver clandestinamente no grupo.

Engana-se quem pensa que a homofobia ocorre apenas em forma de atos discriminatórios. O silêncio é uma forma de violência. A Igreja, ao silenciar-se ou limitar sua abordagem da homossexualidade, acaba por tornar-se um espaço de violência, conhecida como simbólica. Um exemplo de violência simbólica é a existência de uma norma quando nem todos possuem a capacidade de segui-la: os grupos religiosos, quando muito, oferecem apenas o celibato ao cristão homossexual, privando-lhe de um direito essencial: o exercício da afetividade – direito também bíblico. Mesmo simbólica, essa realidade configura-se como violência, pois causa danos à alma do indivíduo. Outra forma de violência é conduzir, ainda que inconscientemente, o cristão homossexual a seguir a norma, ou seja, o relacionamento heterossexual, em que os danos podem ser ainda maiores, pois envolverá outras pessoas.

Talvez, a Igreja acredite não haver homossexuais em seu meio, consequentemente, não vê razões para aprofundar a discussão ali, afinal, aquele não é um problema de seu rebanho. Isso é um mito. Qualquer estrutura religiosa, como parte da sociedade, possuirá membros de orientação homossexual. O fato a ser admitido, na verdade, é que ela não está preparada para responder sobre o assunto. Como responder questões, como oferecer conforto, como conduzir uma situação sobre a qual se desconhece? Impossível. A maioria heterossexual dita as normas (heteronormatividade), a minoria, se quiser e puder, que se adéque a tais normas, do contrário não encontrará espaço.

A igreja afirma amar os homossexuais e não discriminá-los, mas os únicos que possuem propriedade para afirmar isso não é a igreja, mas os próprios homossexuais. A Teologia Inclusiva, tendo como base os princípios bíblicos, não ignora, entretanto, que uma teologia não se constrói apenas unilateralmente, com base nas normas sociais. Seu diferencial é construir bases a partir das experiências, das histórias e da vida das pessoas de orientação homossexual.

Outra forma de homofobia praticada nas igrejas é a violência verbal. Com certa frequência se ouvem dos púlpitos piadas, palavras que refletem estereótipos sobre gays, lésbicas e transexuais e outras colocações ofensivas. Certo pregador televisivo, muito conhecido pela postura agressiva, diz amar até bandidos, quanto mais os homossexuais – o que coloca os gays em categoria semelhante à dos criminosos. Certa deputada católica afirma não querer perder o direito de demitir uma babá lésbica ou um motorista gay, pois corre o risco de que seus filhos sejam molestados, sugerindo que homossexuais são pedófilos. 

Por fim, abordaremos a pior consequência da homofobia religiosa: o suicídio que muitos gays e lésbicas cometem por acreditar que não há lugar para eles na igreja, muito menos no reino de Deus. 

Uma frase do reverendo Caio Fábio reflete bem isso: “o único exército que mata seus soldados feridos é a Igreja.”

Vivemos em um país cristão, cujos conceitos morais foram moldados segundo a interpretação bíblica da normalidade das relações afetivas: homem e mulher. Ser heterossexual, nessa sociedade, equivale a ser normal, ao passo que ser homossexual equivale a ser anormal. A impossibilidade de muitos homossexuais em seguir a norma provoca o que chamamos de homofobia internalizada, ou seja, um sentimento de repulsa pela própria sexualidade. Tal sentimento, reforçado pelo discurso religioso e reafirmado pela sociedade acaba por provocar uma situação irreversível quando o jovem opta por tirar a própria vida.

Em tempos passados (e presentes) homossexuais eram (são) vistos como ameaça à sociedade, ameaça às famílias, aos jovens e às crianças. A tendência natural do ser humano, logicamente, é afastar de si qualquer tipo de ameaça. O episódio de Sodoma – e sua leitura equivocada – levou muitos aos tribunais da inquisição, pois a simples presença de homossexuais em determinada localidade poderia, a exemplo de Sodoma, provocar a ira divina. Essa visão foi propagada pela Igreja durante a Idade Média e prevaleceu por certo tempo, inclusive na época do Brasil Colonial. 

Conclusão: embora os cristãos não admitam, existe homofobia na igreja. As consequências estão aí como provas: elas vão desde a evasão de ovelhas homossexuais ao suicídio. Que um dia a igreja possa rever os seus dogmas e concluir que os ensinamentos bíblicos provocam vida e não morte. Foi para isso que Jesus veio. João 10.10.

A fim de exemplificar o que foi exposto, segue um vídeo, parte do documentário For the Bible tells me so. Vale a pena conferir.


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