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sábado, 9 de julho de 2011

Conversa franca sobre Romanos 1

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Por Alexandre Feitosa

Quando um cristão tradicional quer acusar um cristão membro de uma igreja inclusiva, o repertório é sempre o mesmo: uma pequena lista de textos bíblicos em que atos homogenitais (entre homens, apenas) são condenados: Levítico 18.22; 20.13; 1ª Coríntios 6.9 e 1ª Timóteo 1.10. Com o nascimento de mais uma igreja inclusiva – Comunidade Cidade de Refúgio – liderada pelo casal de pastoras Lanna Holder e Rosânia Rocha, as acusações se multiplicaram. Entretanto, os acusadores cometeram um grave erro ao aplicar tais textos às mulheres, pois nenhum deles faz referência ao sexo entre elas. Nem mesmo Romanos 1.26. Como assim, pastor Alexandre? Paulo foi tão claro!

Bom, a clareza depende de como lemos e interpretamos determinado texto. Uma das regras da Hermenêutica é comparar versículos paralelos – ou seja, que tratem do mesmo assunto – para esclarecer termos obscuros. É aí que os acusadores ficam encurralados! A condenação do sexo entre homens ainda encontra certo número de textos para embasá-la. Mas o que dizer do sexo entre mulheres? Além de Romanos 1.26, nada mais há nas Escrituras que se refira a ele. Se Paulo condena aí a orientação homossexual, comum a homens e mulheres, por que não fez o mesmo em outros textos? Uma coisa, porém deve ficar muito clara: as razões do sexo homogenital masculino condenado na Bíblia não são as mesmas de hoje. Mas esse é um assunto para outro artigo!

É interessante notar como os acusadores esquecem-se por completo do contexto de seus versículos-bala! Ignoram as regras da hermenêutica e da exegese e depois nos acusam de manipular as Escrituras!  Bom, mas vamos ao texto em questão:

26 - Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
27 - E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

Para analisar corretamente esse texto, precisamos de dois princípios da hermenêutica e da exegese: o contexto textual e sociocultural.

Quando analisamos o contexto textual, percebemos que os versículos 26 e 27 de Romanos 1 não são independentes, mas têm o seu conteúdo específico iniciado a partir do versículo 18: a impiedade dos homens e a supremacia de Deus em relação à Criação. A idolatria é um dos temas centrais, o que fica evidente entre os versículos 23 a 25 (Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém). O Versículo 26 inicia-se com a expressão por isso, ou seja, explica porque aqueles atos antinaturais foram cometidos.

A idólatra Roma servia a muitos deuses, bem como cultuava o hedonismo - o prazer como bem supremo. Paulo faz uma análise das consequências dessa realidade tão abominável diante de Deus. Uma das práticas comuns aos cultos romanos era a prostituição cultual. Ali, homens heterossexuais se envolviam em rituais homossexuais, o que justifica a expressão: deixaram a relação natural com a mulher. Ou seja, homens heterossexuais, trocaram uma conduta sexual que lhes era natural por outra, contrária à sua natureza, ou seja, uma prática homossexual, simplesmente como fonte de prazer e de expressão ritualística.

Quanto ao sexo entre mulheres, o texto de Paulo não é definitivo em afirmá-lo, havendo, inclusive, quem acredite que o Apóstolo mencionava o sexo anal heterossexual. Essa interpretação perdurou durante toda a Idade Média. Tudo indica, porém, que o texto esteja fazendo referência a duas cerimônias comuns entre os romanos daquela época: o culto a Bona Dea – restrito às mulheres, inclusive com a prática de cópula com animais; e o culto a Baco, ou bacanais, em que o incesto era parte dos ritos de iniciação. Todas essas práticas eram contrárias à natureza segundo o pensamento judaico, para o qual a função principal do sexo era a procriação.

O texto faz menção a relações contrárias à natureza praticadas em um contexto bastante específico: a adoração de ídolos. Nenhuma ideia há que reflita as relações homoafetivas e monogâmicas da sociedade atual.

O texto fala de homens e mulheres que praticaram perversões sexuais específicas, contrárias a sua natureza. Homens de orientação homossexual nunca deixaram a relação natural com a mulher (v.27), simplesmente porque isso nunca lhes foi natural! O sexo entre mulheres não está em questão visto que a penetração e a semente (exclusiva dos machos, segundo a visão da época) eram necessárias para que um ato fosse considerado de natureza sexual.

Alguns leitores podem estar pensando: “que nada, essa interpretação é forçada! Vocês estão deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas práticas homossexuais!” Bom, para provar que essa análise não é invenção de teólogos gays, vamos ver o que diz o comentário da Bíblia de Estudo Dake, CPAD, sobre esse texto:

“... Esse tipo de idolatria tem sido a raiz de toda imoralidade abominável dos pagãos. Os ídolos têm sido os padroeiros da licenciosidade (vv. 23-32). Quando davam forma humana a seus deuses, eles os dotavam de paixões e desejos e os representavam como escravos de infames perversões sexuais e como possuidores de poderes ilimitados de satisfação sexual. Deus permitiu que eles se entregassem a pecados homossexuais e perversões desse tipo.[1]

Entretanto, não faltam tentativas de alterar o que Paulo escreveu. Vejam como a Nova Bíblia Viva, Editora Mundo Cristão, Edição 2011, traduziu Romanos 1.26:

“Esta é a razão pela qual Deus os entregou a paixões pecaminosas, a tal ponto que até suas mulheres se voltaram contra o plano natural que Deus tinha para elas e cederam aos pecados sexuais entre elas mesmas.”

Bom, diante de tudo o que expusemos, deixo uma pergunta aos nossos acusadores: Quem está deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas crenças?

Quer aprofundar esse estudo? Não deixe de ler o livro "Bíblia e homossexualidade: verdade e mitos". Clique AQUI e saiba como!
 

[1] Bíblia de Estudo Dake, CPAD, 2009, pág. 1799.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Lanna Holder: o dom do recomeço...

             Após tornar pública sua saída da Assembleia de Deus (confira pronunciamento AQUI) e a união com a pastora e cantora Rosânia Rocha, a missionária pernambucana Lanna Holder protagonizou a abertura de uma nova denominação: a Comunidade Cidade de Refúgio.[1] Embora afirmando não levantar bandeiras a não ser Jesus Cristo, a Igreja nasce com uma postura essencialmente inclusiva, o que bastou para suscitar, uma vez mais, outro alvoroço e, consequentemente, retaliações e pedradas, dada a sua popularidade no meio evangélico:

            “Não nascemos com a perspectiva de levantarmos uma bandeira, mas com a missão de termos a Ele como a nossa única bandeira. Uma igreja que ama a todos e não exclui a ninguém,  que anseia ser UM LUGAR AOS ESCOLHIDOS, pela convicção de que Deus não faz acepção de pessoas.”
            “Alguns de nós fomos achados nos lixões. Abortados do seio das igrejas e das nossas casas, sufocando pela busca das respostas que muitos de nós não tínhamos, mas incansavelmente ansiávamos, pelo simples desejo de ADORÁ-LO.”

             Não precisamos procurar muito para encontrar, principalmente na internet, insultos provenientes daqueles que se dizem cristãos, dirigidos àquela que, até poucos dias atrás, era aclamada e aplaudida pela multidão. Isso me faz lembrar da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém: os mesmos que O exaltaram com ramos de palmeiras e outras honrarias eram os mesmos que O levaram à cruz. Lembro-me também dos versos do brilhante poeta, também nordestino, Augusto dos Anjos: a mão que afaga é a mesma que apedreja.
            Orgulho-me de Lanna Holder, não apenas por sua coragem em revelar sua identidade e mudar, em nome da verdade, os rumos do seu antigo testemunho, trazendo à tona o que realmente aconteceu, mas por ela ser uma prova viva de que Deus usa quem quer, quando Ele quer, da forma como quer! Basta que o homem e a mulher se coloquem na posição de serem instrumentos Seus, e isso independe de nossa constituição! Quer queiram ou não, os milhares de cristãos que a aclamaram – e hoje a condenam – deverão engolir essa verdade.
            O cenário da pregação evangélica tradicional não será o mesmo daqui para frente. De fato eles têm muito que lamentar, mas, como o orgulho e a ignorância não permitem, atirar pedras é o caminho mais curto e prático. É óbvio que a saída de Lanna – ao menos da maioria dos púlpitos – representará uma grande perda.  Lanna Holder é um dos grandes arautos de Deus na atualidade e não deixará de sê-lo. É sua marca fazer a diferença, ser mulher destemida, que não hesita em falar a verdade, em denunciar os falsos líderes e seus abusos, em arrancar as máscaras aos fariseus da atualidade. Seu legado não será esquecido ou abandonado porque abraçou oficialmente a inclusão, pelo contrário. Mesmo sem os holofotes ou sem o glamour que a cercaram nas grandes denominações brasileiras e estrangeiras, certamente a glória da segunda casa será maior que a da primeira! (Ageu 2.3, Isaías 61.7) Que falte a multidão, que faltem os holofotes, só não falte a presença de Deus! Ouvindo suas pregações aprendi que Deus não requer que sejamos perfeitos, mas exige que sejamos verdadeiros; Deus não precisa de atores e, sim, de adoradores! Aleluia! Essas verdades têm sido o seu norte nessa nova fase.
            Lanna tem a marca do recomeço, da volta por cima, não por mérito próprio, mas por ser uma escolhida de Deus, alvo de sua graça, como todos nós. Esse recomeço será marcado pelo momento de vivenciar, na prática, a essência de suas mensagens, ou seja: o resgate às ovelhas perdidas, o acolhimento às ovelhas pródigas, o cuidado às ovelhas feridas, lançadas para fora do redil ou que temiam nele entrar por se julgarem indignas, não à toa, mas pelo que lhes foi ensinado pelo legalismo religioso.
            O povo evangélico pentecostal, grande parte formado por gente inculta e avessa à leitura, foi incapaz de compreender que, há mais de dois anos, por meio de sua autobiografia, Lanna Holder revelou-se o bastante para não ser alvo de acusações injustas. Foi evidente a mudança de suas declarações desde que voltou aos púlpitos. Em suas últimas pregações já não se ouvia o testemunho que a tornou tão famosa, embora muitos almejassem e esperassem por isso. O que se ouvia eram mensagens de denúncia, inclusão e graça infinita, em tons bastante nítidos, porém, poucos foram capazes de compreender que um novo momento estava para começar.
             Durante os últimos meses, Lanna preparou o caminho para assumir mais um ministério ao qual fora chamada: o de pastora, principalmente – não exclusivamente – da minoria bastarda e rejeitada. Tenho convicção de que cada episódio que ocorreu em sua vida foi não apenas permissão de Deus, mas plano Seu. Em uma de suas mensagens mais famosas, Prostitutos do Santuário, Lanna chega a mencionar o desejo de pastorear uma igreja a fim de abrigar todos quantos foram, de alguma forma, excluídos e rejeitados. Esse desejo nasceu de uma dura experiência. Era necessário que, em sua história e trajetória, Lanna sentisse na pele as dores de muitos, dores que a moldariam, tornando-a capaz de exercer o amor incondicional e compreender plenamente não apenas seus semelhantes, mas seus iguais, ávidos por um refúgio, por dignidade, por um lugar na Casa de Deus:

            “Somente cada um de nós pode avaliar sua própria historia e sua própria dor...
            Que a falta de visão dos lideres que cercam essa geração, não impute pecado aos sonhadores, que não enxerguem nos que sonham a embriaguês dos que almejam apenas uma vida de boemia e de ilusões, mas conheçam em nós a insistência de romper a impossibilidade pelo compromisso de buscá-Lo insistentemente até que sejamos ouvidos.
            Geramos durante  meses e porque não ousar dizer que estamos gerando há anos? A nossa hora chegou, e alguns de nós já sentem as dores de parto, a tristeza já fez seu repouso, mas já veio de malas prontas porque a alegria já selou sua morada permanente.
            Que nasça a CIDADE DE REFÚGIO, e que venham os outros REFÚGIOS, afinal, na chegada de cada um deles damos à luz nossos sonhos, rompemos as impossibilidades e a esterilidade. Que este ano seja o ano dos que insistiram em sonhar, e que as lagrimas da perseverança hoje sirvam pra regar os RAMOS NOVOS.
            Nele em quem damos frutos!

            Lanna Holder e Rosania Rocha

Confira o vídeo feito pelas pastoras:


[1] Eu, Alexandre Feitosa, juntamente com a Diaconisa Ana Rantier, tivemos a honra de participar, como representantes da Comunidade Athos Brasília, do terceiro dia de abertura da Comunidade Cidade de Refúgio, em SP, capital.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Lanna Holder por ela mesma!

         Semana passada, exatamente no dia 24/05, tive a grata oportunidade de conhecer pessoalmente a missionária Lanna Holder, não apenas assistindo-a pregar, mas apresentando-me e travando um rápido diálogo em virtude do forte assédio. A primeira lembrança e referência que tenho de Lanna foi há cerca de 8 anos, quando minha sexualidade veio à tona em minha antiga igreja e o então pastor recomendou que eu assistisse ao seu testemunho: uma prova viva de que Deus pode transformar um homossexual em heterossexual.
         Dentre os vários materiais de seu ministério disponíveis para venda naquela noite, pude adquirir sua autobiografia intitulada “O Diário de uma filha pródiga”. Simplesmente, “devorei” o livro de 262 páginas em apenas 5 dias, um verdadeiro recorde para mim, em virtude do meu tempo escasso, dividido entre 2 empregos e funções eclesiásticas.
          Lanna consegue nos prender da primeira à última página, utilizando uma narrativa ágil e envolvente, ao mesmo tempo em que traduz verdades advindas de suas dolorosas experiências. Preparei este artigo porque muitas das perguntas que povoam o imaginário cristão são respondidas, nesta obra, com muita franqueza e transparência pela missionária, alvo de um escândalo em 2003, quando, no auge da fama e sob a luz dos holofotes evangélicos, viu seu ministério ruir após confessar a seus pastores, o envolvimento afetivo que teve com uma cantora brasileira que, à época, residia em Boston, EUA.
         O mérito do “Diário” está na forma fiel com que Lanna revela os dilemas de pessoas homossexuais, especialmente as cristãs, em sua luta constante pela “restauração” sexual, e o mais surpreendente, as frustrações advindas pela ausência de resultados concretos, frustrações que levaram a conclusões surpreendentes, como a constatação de que apenas uma pequena minoria de pessoas homossexuais – da qual a autora deixa claro não fazer parte – alcançava a mudança almejada. Diário de uma filha pródiga é leitura obrigatória para líderes que realmente se importam com suas ovelhas, em especial aquelas que enfrentam uma batalha diária contra a homossexualidade; é uma ferramenta indispensável para leigos que desejam realmente conhecer o fenômeno da homossexualidade sem falsos moralismos, pré-julgamentos e pré-conceitos e, finalmente, é uma fonte de conforto para cristãos homossexuais que desejam conhecer sua própria identidade e constituição.
         A seguir, transcrevemos alguns trechos que julgamos importantes, separando-os por temas. Para situar os assuntos, fizemos uma espécie de entrevista.

         Lanna, com relação à sexualidade, você possui alguma lembrança marcante de sua infância?

         “Aos sete anos me dei conta de um estranho, mas satisfatório, desejo que eu possuía: a vontade de ser um menino! [...] Até onde me recordo, sempre estive debaixo desta convulsão de sensações, que durante algum tempo me foi imperceptível pela inocência da infância, mas aos sete anos, completamente visível e manifesta. Visível pela forte característica de gosto e gênero, e manifesto pela forma como era claro e marcante, num jeito menino de ser e agir.” (p. 23)

         Como foi lidar com sua sexualidade na adolescência?


         “Uma dura tarefa, uma adolescência de conflitos, tentativas de autoafirmação, namoros forçados, profundos desejos de mudança, tiros na escuridão da incerteza, projeção satisfatória para os que me cercavam, mas dentro de mim angústia e receio pelo que crescia e até quando poderia ser controlado. Uma difícil aceitação para mim mesma.” (p.57)

         Lanna, após sua experiência, a que conclusão chegou sobre a realidade da homossexualidade?

         “Contrariando o que muitos ousam dizer, homossexualidade não é uma opção de vida, não para os que enfrentam o problema desde sua infância e adolescência. Para estes, ela se parece mais com uma imposição pela sua força e intensidade de natureza imutável. [...] Costumo definir a homossexualidade em três tipos: aqueles que nasceram assim (a ciência não tem provas cabais de que o indivíduo nasce gay [ou hetero]), aqueles que se tornaram gays (através de estímulos ainda na infância que lhe moldaram a alma nesse estilo de vida) e os que se fazem gays (descobriram o prazer na relação homo e optaram por ela). É evidente que, para os que sentem que nasceram gays, a luta é muito mais acirrada e o processo chega a ser tão sofredor que muitos desistem, por acharem que não conseguirão mudar. Já os que se tornaram homossexuais enfrentam com o mesmo afinco e aflição de alma as barreiras para a mudança, no entanto, alguns conseguem êxito. Os que têm prazer com pessoas do mesmo sexo e lutam com o ciclo vicioso e a estrutura de prazer que optaram para si próprias, com determinação e perseverança alcançarão êxito em um grau de dificuldade menos que os demais.” (p. 58, 63 e 64).

         Em seu primeiro testemunho, entretanto, por algumas vezes, a homossexualidade foi apresentada como doença, maldição ou mesmo como ação de demônios. Como você responderia a essa questão hoje?

         “Sei que já tratei assim essa questão durante os sermões que pregava, mas humildemente me disponho a uma nova postura, em que, independentemente da causa ou da consequência, meu desejo é ajudar, não rotulando ou definindo, mas mostrando aonde podemos chegar”. (p.65)
         “Hoje, mesmo depois de perceber que algumas coisas são imutáveis em mim, lamento por tudo o que já preguei no afã de que aquela verdade fosse comprovada através da minha própria vida, contudo, os fracassos me mostraram que nem todos são alvos da mesma manifestação, porém todos podem ser alvos da mesma salvação e graça e resolvi usufruí-la em cada segundo da minha vida”. (p.257)

         Um dos grandes mandamentos é amar ao próximo, entretanto, como, na sua visão, a maioria dos cristãos veem os homossexuais?

         “Esta maioria está alheia à dor que o homossexual sente quando o encaram com culpado daquilo que muitos deles não sabem nem ao menos o porquê de serem assim. Eles são taxados de imorais e desprovidos de vergonha, não merecedores de compaixão e dignos de toda sorte de maldição. Assim, a maioria deles tem de conviver com sua dor própria ao descobrir que é diferente e ainda sofrer o julgamento daqueles que os definiram como raça diferente. É óbvio que o desejo de Deus é que amemos uns aos outros, e isso só podemos oferecer quando descobrimos a essência do primeiro mandamento: amar a Deus acima de todas as coisas. Desta forma, saberemos como amar ao próximo, mesmo que ele não seja exatamente aquilo que esperamos. Ao menos em suas diferenças, os gays se demonstram capazes de amar muito mais do que os que, pela venda cega do legalismo, são algozes e carrascos. Acredito muito mais nas mudanças de um homossexual do que de um fariseu e hipócrita.” (p.82)

         Que palavra você deixaria àqueles que, por sua sexualidade, afastam-se da Igreja?

        
         “Meu maior desejo é dizer hoje aos que estão longe do Evangelho por causa de sua sexualidade que a graça derrubou tais barreiras, chamando-os a uma vida de excelência mesmo em meio às suas debilidades e limitações. Afinal, a obra será feita por ele mesmo. [...] Todos são iguais pela mesma condição de pecadores e todos estão carentes da manifestação da graça. A graça se manifestou a todos por sermos inaptos, pelas nossas próprias obras, de alcançar o favor do perdão, mas resgatados por um favor gratuito e imerecido”. (p. 179)

         O que motivou seu casamento com um homem, visto que sua sexualidade não sofrera qualquer mudança?

         “Quando ele surgiu, havia muitas questões ministeriais e pessoais, mas o envolvimento foi espontâneo. Eu realmente gostava dele e o desejava como homem e companheiro, mas dentro de mim duas motivações erradas me moviam: o desejo de esquecer alguém e o de fugir das sombras do passado. Quanto à ânsia de me encaixar na sociedade ou provar que era normal e estava curada, pouco me impulsionava. Afinal, eu sabia que muita coisa não havia mudado, mas meu coração dava indícios de que o amaria, e essa era a minha motivação. [...]
         Alguns dias depois, estando em Guarulhos, fomos à casa de uma mulher de Deus, que era usada no dom da profecia. Lembro-me de não me sentir muito à vontade, temendo pela profecia tendenciosa, mas orei em espírito para que o Senhor dirigisse aquela mulher em Suas mãos. Ela orou por nós, falou sobre as lutas [...] e que era vontade do Senhor a nossa união. [...] saí dali com uma sensação estranha. Não conseguia distinguir se era de Deus ou não. [...] Olhando em seus olhos, disse que não o amava o suficiente para me casar. [...] Aborrecia a ideia de me casar para fugir do meu passado. Queria casar por amor e não por medo do que me perseguia.
         Em seguida, a decisão foi tomada e parti rumo ao altar.” (p. 198 e 201)

         Em relação ao seu ministério, como se sentia depois dos primeiros anos de casamento?

         “Estava vivendo apenas um barato espetáculo da fé, uma vitrine que precisava ser mostrada em consequência daquilo que foi oferecido como prova do milagre e agora era requisitado como prova das bênçãos do Pai. Eu podia sorrir enquanto testemunhava e, muitas vezes, orava para que as minhas palavras tivessem o poder de trazer á existência ao menos aquilo que pregava. [...] (p.215)
          A essência das minhas mensagens estava voltada para o milagre que eu carecia, para a restituição que ansiava, para as vitórias que necessitava com urgência. Definitivamente, eu pregava o que vivia, não pela experiência de ter recebido, mas pela fé de que alcançaria, ainda que não fosse como imaginava, mas na convicção de que Ele proveria o melhor [...] (p.222)


         Após o fim do casamento, ainda houve tentativas de mudança?

         “Por quase um ano passei por encontros, ministrações de cura interior, mapeamento espiritual, quebra de maldições, batalha espiritual, constantes desligamentos de alma e tudo quanto as estratégias que a visão celular e o governo dos doze poderiam me oferecer como resposta de cura para a minha sexualidade. [...] (p.234) Eu percebi que a cada 100 pessoas que sofriam com problemas na sua sexualidade desde a infância, uma porcentagem mínima alcançava uma mudança definitiva.” (p. 235)

         Um acidente quase lhe tirou a vida, 3 dias em coma dentro de um quarto de hospital e uma experiência que mudaria, de fato, sua visão sobre si mesma e sua sexualidade. O que aconteceu?

         “Minha alma estava em um quarto finito em espaço e infinito em beleza e paz. O ambiente era branco e cândido. Uma glória invadia a atmosfera dando-lhe uma ávida forma de paraíso e doce lar. Não enxergava meu corpo físico [...] pude sentir uma presença magnífica invadindo o quarto. Não tive medo... Minhas ansiedades só me levavam a desejar vê-lo e conhecê-lo ainda mais. Pensava que não o veria, quando senti que sua presença era grande demais para caber naquele lugar. Mesmo assim O senti encher o ambiente com graça e amor [...] Nesse momento, ouvi-o me chamar, não pelo nome, mas pela maior de todas as filiações: ‘Minha filha’! [...] Ali eu era filha, mesmo não tendo sofrido as mudanças exigidas e desejadas” (p. 239, 241)


         Muitos cristãos homossexuais a veem como um referencial de mudança pelo seu antigo testemunho. O que eles podem esperar de sua autobiografia?

         “Sei que alguns tiveram a sua motivação em ler este livro, na busca pela fórmula mágica, pela mudança, pela saída do labirinto. [...] Meu desejo não é definir a possibilidade de reversão sexual, nem vender uma fórmula mágica para mudar aquilo que já está na essência de muitos. Meu alvo é fazê-los gozar do favor do Pai”. (p.66)
         “Aos leitores, desejo que a visão tenha sido influenciada pelo desejo de conduzir, novamente, aos aposentos do PAI, os que foram excluídos. Muitos dos que são rotulados gays, lésbicas, transexuais não fizeram assim a sua opção”. (p.258)


Diário de uma filha pródiga
Autora: Lanna Holder
Editora: Atual Brasil
262 páginas
R$ 27,90


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