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sábado, 18 de junho de 2016

Pastor Lança Livro Contra a Homofobia Religiosa

A campanha Jesus cura a homofobia foi idealizada pelo pastor batista José Barbosa Júnior

Autor desafia leituras conservadoras da Bíblia, lançando um novo olhar sobre o que ela, de fato, diz sobre as minorias sexuais.



O pastor Alexandre Feitosa acaba de concluir mais uma obra literária: Teologia Inclusiva: fundamentos, métodos, história e conquistas. A obra é mais um lançamento da Oásis Editora, especializada em publicações teológicas voltadas para o público LGBT. O livro é o sexto trabalho do Pastor, que estreou em 2010 com a bem sucedida obra Bíblia e Homossexualidade: verdade e mitos, que está a caminho da terceira edição. Sua obra é marcada pela leitura histórico-crítica das Escrituras, método que contextualiza os versículos, interpretando a mensagem sob a luz dos aspectos culturais, históricos, religiosos e sociais da época bíblica. A leitura histórico-crítica da Bíblia lança luz sobre os textos que supostamente condenam as minorias sexuais. Essa abordagem permite concluir que os conceitos de orientação sexual, homoafetividade e identidade de gênero estão ausentes dos textos bíblicos. O lançamento nacional do livro ocorrerá neste sábado, 18/06, na Comunidade Athos Brasília.


Kibook - Qual o tema desse novo trabalho?
AF - Seguindo uma linha semelhante à das obras anteriores, este novo trabalho propõe reflexões bíblicas sobre as minorias excluídas e segregadas por conceitos religiosos. A partir das Escrituras e, especialmente a partir de Cristo e da Igreja Primitiva, somos levados a compreender que a Bíblia está longe de ser um livro homofóbico, como muitos acreditam. O tema deste trabalho é a inclusão das minorias sexuais sob a perspectiva de Cristo e das primeiras comunidades cristãs. Uma análise minuciosa e livre de ideologias conduzirá o leitor da Bíblia, inevitavelmente, a um novo olhar, livre de preconceitos sobre aqueles que, tradicionalmente, fomos levados a discriminar. Nunca, no Brasil e no mundo, os direitos da comunidade LGBT se expandiram tanto, por outro lado, em proporção semelhante, em nenhum outro momento o preconceito e a discriminação contra essa comunidade vieram à tona com tanta intensidade.


Kibook - Qual a relevância desse livro para o cenário atual?
AF – A importância desse trabalho está em seu papel esclarecedor. Todo preconceito é gerado pela falta de informações. É necessário quebrar o ciclo do preconceito. O preconceito precede a discriminação. Os crimes de ódio, como o praticado no último domingo em Orlando, são motivados pelo preconceito. No Brasil, a realidade é ainda mais triste. Pesquisas do Grupo Gay da Bahia (GGB) indicam que um LGBT é morto a cada 26 horas. As estatísticas são alarmantes. Em 2015, 318 LGBTs foram assassinados. Esses dados colocam o Brasil no topo dos crimes de ódio quando o assunto é violência contra lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Ao quebrar o ciclo do preconceito, a violência deixa de existir. O livro tem um caráter informativo, formativo e reflexivo. Aliamos informação e reflexão nessa obra, tendo como ponto de partida o ministério de Jesus Cristo e os princípios do Evangelho propagados por Ele e pela Igreja Primitiva. As reflexões propostas nessa obra envolvem basicamente a inclusão de excluídos e marginalizados por questões religiosas. Abordamos desde a inclusão da mulher à inclusão das minorias sexuais, representadas pela figura dos eunucos. Se a exclusão das minorias sexuais nasce de uma interpretação equivocada da Bíblia, deve ser a partir da mesma Bíblia que a inclusão deve nascer. 


Kibook - O livro já está à venda há mais de um mês. Como tem sido a receptividade da obra?
AF – Graças a Deus nossas expectativas quanto à recepção da obra têm sido superadas. Já vendemos metade da primeira tiragem e estamos providenciando uma segunda tiragem, maior que a primeira, pois já temos lançamentos marcados em outras capitais. Tenho recebido umfeedback bastante positivo das pessoas que já adquiriram o livro, o que nos motiva a continuar escrevendo novos trabalhos que contribuam para a inclusão das minorias sexuais à Igreja, bem como para o combate do preconceito a essas minorias.


Kibook - Para concluir, uma frase que resuma o livro:
AF – A frase que resume o livro está na Bíblia, no livro de Atos, capítulo 10, versículo 34:Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas. Esse princípio bíblico confirma todas as reflexões que construímos com base nos relatos dos Evangelhos e nos demais livros do Novo Testamento. Em cada relato analisado, essa verdade fica evidente. Pessoas antes excluídas pela religião passam a caminhar lado a lado com Cristo. De posse dessa verdade valiosa levamos a própria comunidade LGBT a compreender que Deus não exige mudança de sua constituição sexual. As minorias sexuais são aceitas por Deus, pois a diversidade é parte de Seu trabalho criativo. O livro nos leva a encarar a comunidade LGBT sob a perspectiva de Cristo, quebrando o ciclo do preconceito e da violência, promovendo um entendimento gracioso das Escrituras e uma cultura de paz.



Um pouco mais sobre o autor: Alexandre Feitosa é brasiliense, graduado em língua portuguesa, pastor e professor. Desde 2006, dedica-se ao estudo da Teologia Inclusiva e a palestras sobre o assunto. É autor das seguintes obras: Bíblia e Homossexualidade: verdade e mitos (2010), O Prêmio do amor (2011), A Igreja Trans(2012), Quem está manipulando a Bíblia? (2013), Lições Bíblicas Conhecimento & Graça (2014). É membro da Comunidade Athos de Brasília, uma igreja protestante inclusiva. 





Lançamento do livro: 18 de junho de 2016 a partir das 19h30 na Comunidade Athos Brasília – SDS – Conic – Edifício Eldorado, Entrada B, Subsolo, Sala 17.

EspecificaçõesTeologia Inclusiva: Fundamentos, Métodos, História, Conquistas – Oásis Editora, Brasília, 2016, 102 páginas. 




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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Estupro Coletivo, Ideologia de Gênero e Homofobia

Campanha da Dolce & Gabbana em que ficam explícitas
as posições típicas da sociedade patriarcal para homens e mulheres.
           
Pr. Alexandre Feitosa

Está havendo uma grande inversão acerca do que é a Ideologia de Gênero. Já expusemos em outros momentos que tal ideologia, pelo menos como é compreendida pelo senso comum cristão, simplesmente não existe! Entretanto, meditando melhor sobre tal expressão – que voltou à tona após a declaração de Ana Paula Valadão – constatamos que a Ideologia de Gênero realmente existe e está intimamente associada à mentalidade cristã, representada por evangélicos e católicos conservadores. Para entendermos melhor a questão, vejamos o que é ideologia:

Em um sentido amplo, genérico, ideologia significa tudo aquilo que seria ou é ideal, adequado, correto. Uma ideologia representa "um conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas, ou visões de mundo de um indivíduo ou de determinado grupo, orientado para suas ações sociais e políticas." (www.significados.com.br/ideologia/).
           
Bem, após essa definição, as coisas começam a ficar mais claras. Os estudos sobre a sexualidade humana fizeram muitas descobertas a partir do século XIX: aprendemos que as pessoas possuem componentes que, juntos, formarão o que chamamos de constituição sexual: sexo biológico, orientação sexual (heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade) e identidade de gênero (sentimento de pertencimento ao gênero masculino ou feminino). Todos os seres humanos possuem esses componentes nas mais variadas combinações. Os estudos de gênero não prescrevem este ou aquele comportamento para homens e mulheres, apenas comprovam que certas condutas foram construídas socialmente, por exemplo: rosa é a cor das meninas e o azul é a cor dos meninos; meninas brincam de boneca, meninos brincam de carrinho; cabelo comprido é para mulheres, cabelo curto é para homens, saia é para mulheres, calça é para homens. Esse tipo de comportamento é considerado ideal para o que a sociologia e a filosofia chamam de ideologia conservadora, intimamente ligada às questões religiosas. Fugir dessas normas é transgredir não apenas leis morais, mas a lei de Deus! Cada pessoa deve comportar-se segundo o que se determinou socialmente como adequado e correto para seu sexo biológico. Isso é um tipo de ideologia, pois trabalha para perpetuar valores morais e comportamentais considerados corretos e ideais.
             
Na verdade, quem está pregando e disseminando uma ideologia dos gêneros é a igreja cristã institucional, que se tornou machista e misógina, considerando o homem superior à mulher, fixando comportamentos rígidos para um e outro sexo, aprisionando pessoas em padrões que Deus não estabeleceu, desrespeitando singularidades e violentando identidades.   
            
Se pararmos para pensar sobre o bárbaro episódio do qual foi vítima a adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro, constataremos que se trata de uma demonstração da força física masculina sobre a fragilidade física feminina. Aquela garota foi usada e abusada sem nenhum tipo de consciência moral dos seus algozes. A violência sofrida por essa jovem, infelizmente, se repete todos os dias em nosso país e por todo o mundo. Os estupros coletivos nasceram da cultura patriarcal, machista e da misógina. Esse tipo de atrocidade revela outra faceta cruel da Ideologia de Gênero: a de que as mulheres merecem sofrer esse tipo de violência simplesmente por serem mulheres, porque são vaidosas (na mentalidade machista isso equivale e a serem oferecidas), atraindo, natural e intencionalmente, o desejo masculino. Dessa forma, justifica-se a violência. Não raro, em países como a Índia, a culpa pelo estupro recai sobre as mulheres.
            
O estupro coletivo de mulheres (e até de homens) não é algo da nossa geração. A Bíblia narra esse tipo de violência no livro de Juízes, capítulo 19. A vítima? Uma concubina, mulher (propriedade) de um levita – membro do sacerdócio judaico. A brutalidade foi tamanha que resultou na morte da mulher (Juízes 20.5). O mais chocante desse relato é que o alvo do estupro seria o levita, não a concubina. Não porque os estupradores fossem gays, mas porque queriam humilhar um homem estrangeiro e o sexo era a melhor forma para isso (esse episódio é análogo ao ocorrido em Sodoma). Entretanto, naquele contexto cultural, um estupro coletivo de uma mulher era encarado com certa naturalidade (Gênesis 19.8, Juízes 19.22-28). A mentalidade de que as mulheres eram bens, subordinadas às vontades masculinas, justificava que seus corpos fossem violados sem grandes prejuízos morais. Os eventos que decorreram reforçam essa ideia. Pela manhã, o levita, com muita naturalidade, ao ver a mulher caída, lhe diz: – Levanta-te e vamos (Juízes 19.28a). Entretanto, ao constatar sua morte, uma cena digna de um filme de horror é descrita: o levita esquarteja a mulher e espalha seus pedaços em Israel (Juízes 20.6). Brutal, certo? Sem dúvida! Porém, naquela sociedade, aquele gesto foi simbólico, pois a morte da mulher (não seu estupro) resultou na perda de um bem. Os homens de Israel se revoltam e atacam a cidade onde ocorrera o assassinato (Juízes 20.7-48). O estupro de um homem resultaria em desonra e humilhação extremas, pois o colocaria na posição de uma mulher. O estupro de uma mulher não alteraria em nada sua condição.
            
Isso explica muito acerca da homofobia, especialmente quando percebemos que os gays passivos ou efeminados sofrem mais preconceito que os gays cis-heteronormativos, ou seja, os gays ativos e viris, assemelhados aos homens heterossexuais. Gays passivos ou efeminados estão mais próximos do feminino enquanto que gays ativos e viris estão mais próximos do masculino, isso explica que a homofobia tem relação direta com o machismo e com a misoginia e, consequentemente, com a ideologia de gênero, já que esta prescreve o que é ideal ou não sobre comportamentos e papéis.  
             
Havia e há um padrão para as mulheres e para os homens, ainda que tais padrões não traduzam a vontade de Deus. A mulher ideal deve ser submissa, recatada (calada) permanecer casada mesmo quando traída, cuidar das tarefas domésticas e dos filhos. Mulheres independentes demais não são bem vistas pela igreja e pela sociedade conservadora. Sua existência tem um fim muito específico: servir ao homem e dar-lhe filhos. São resquícios do patriarcado já descrito.
            
Todas essas convenções culturais e sociais são reforçadas por interpretações descontextualizadas das Escrituras. Na alienação bíblica e teológica, a ideologia de gênero "cristã" enclausura pessoas, especialmente as mulheres, contrariando o princípio bíblico da liberdade para a qual Cristo nos libertou! (Gálatas 5.1).

            
E agora, José? Quem realmente tem insistido em impor uma ideologia dos gêneros? Talvez Ana Paula Valadão possa responder!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Afinal, há homofobia na igreja?


Por Alexandre Feitosa

Desde que o projeto de Lei 122/2006 ganhou fama, principalmente pela polêmica gerada, o termo homofobia e seus derivados, embora já existissem, tornaram-se populares, também, no discurso dos cristãos em geral. As acusações são recíprocas entre a militância LGBT e os líderes cristãos. A Militância acusa a Igreja de ser homófoba e a Igreja acusa a militância de reivindicar um tratamento privilegiado aos gays em detrimento da maioria da população. Analisar o propósito do PCL 122 não é o objetivo deste artigo, pois já fizemos isso em textos anteriores. Nosso objetivo é analisar se há ou não homofobia nas igrejas convencionais. Afinal, o que é homofobia? Seria apenas uma forma patológica de ódio irracional e extremo aos homossexuais a ponto de causar agressão e morte ou pode, também, corresponder a uma postura – ainda que de omissão – por parte da sociedade ou mesmo da Igreja?

Se entendermos a homofobia como medo irracional quanto à homossexualidade, não é tão descabida a afirmação de que a Igreja, em geral, é homófoba. Por quê? Primeiro pela falta de espaço que o assunto possui ali. Há medo, temor e receio em se abordar aberta e francamente o assunto, sem o viés da condenação teológica. A posição da Igreja quanto à homossexualidade revela-se unilateral, ou seja, as interpretações literais bíblicas direcionam o discurso, centrado, sempre, na condenação. Essa “clareza” bíblica sobre a homossexualidade (lembremo-nos sempre de que a Bíblia apresenta atos homossexuais, não o conceito de homossexualidade). Há uma recusa em se conhecer a fundo o assunto, acreditando-se que a Bíblia já oferece o suficiente para entendê-lo e julgá-lo. Enquanto isso, no seio da Igreja, cristãos homossexuais – em segredo – anseiam por respostas e, principalmente, por uma atenção especial ou, ao menos, um pequeno espaço, que revele, de fato, o amor que a igreja tanto prega. Essa espera é angustiante e, com frequência, acaba por afastar os cristãos gays do rebanho. Ao ignorar o assunto, recusando-se a conhecê-lo ou oferecendo apenas uma visão condenatória, a postura da igreja acaba por ser, ainda que em menor grau, homofóbica, já que se baseia na ignorância e no medo em abordar o tema. A falta de conhecimento sobre o assunto gera a irracionalidade, a irracionalidade gera o temor em falar abertamente sobre a homossexualidade. Não é à toa que grande parte dos cristãos homossexuais prefere deixar a Igreja a tornar pública sua condição, bem como o seu dilema e as suas lutas, quase sempre solitárias. Se a Igreja não lhes parece um lugar acolhedor, um lugar de amigos sinceros e interessados em sua dor, a melhor postura é sair dali ou viver clandestinamente no grupo.

Engana-se quem pensa que a homofobia ocorre apenas em forma de atos discriminatórios. O silêncio é uma forma de violência. A Igreja, ao silenciar-se ou limitar sua abordagem da homossexualidade, acaba por tornar-se um espaço de violência, conhecida como simbólica. Um exemplo de violência simbólica é a existência de uma norma quando nem todos possuem a capacidade de segui-la: os grupos religiosos, quando muito, oferecem apenas o celibato ao cristão homossexual, privando-lhe de um direito essencial: o exercício da afetividade – direito também bíblico. Mesmo simbólica, essa realidade configura-se como violência, pois causa danos à alma do indivíduo. Outra forma de violência é conduzir, ainda que inconscientemente, o cristão homossexual a seguir a norma, ou seja, o relacionamento heterossexual, em que os danos podem ser ainda maiores, pois envolverá outras pessoas.

Talvez, a Igreja acredite não haver homossexuais em seu meio, consequentemente, não vê razões para aprofundar a discussão ali, afinal, aquele não é um problema de seu rebanho. Isso é um mito. Qualquer estrutura religiosa, como parte da sociedade, possuirá membros de orientação homossexual. O fato a ser admitido, na verdade, é que ela não está preparada para responder sobre o assunto. Como responder questões, como oferecer conforto, como conduzir uma situação sobre a qual se desconhece? Impossível. A maioria heterossexual dita as normas (heteronormatividade), a minoria, se quiser e puder, que se adéque a tais normas, do contrário não encontrará espaço.

A igreja afirma amar os homossexuais e não discriminá-los, mas os únicos que possuem propriedade para afirmar isso não é a igreja, mas os próprios homossexuais. A Teologia Inclusiva, tendo como base os princípios bíblicos, não ignora, entretanto, que uma teologia não se constrói apenas unilateralmente, com base nas normas sociais. Seu diferencial é construir bases a partir das experiências, das histórias e da vida das pessoas de orientação homossexual.

Outra forma de homofobia praticada nas igrejas é a violência verbal. Com certa frequência se ouvem dos púlpitos piadas, palavras que refletem estereótipos sobre gays, lésbicas e transexuais e outras colocações ofensivas. Certo pregador televisivo, muito conhecido pela postura agressiva, diz amar até bandidos, quanto mais os homossexuais – o que coloca os gays em categoria semelhante à dos criminosos. Certa deputada católica afirma não querer perder o direito de demitir uma babá lésbica ou um motorista gay, pois corre o risco de que seus filhos sejam molestados, sugerindo que homossexuais são pedófilos. 

Por fim, abordaremos a pior consequência da homofobia religiosa: o suicídio que muitos gays e lésbicas cometem por acreditar que não há lugar para eles na igreja, muito menos no reino de Deus. 

Uma frase do reverendo Caio Fábio reflete bem isso: “o único exército que mata seus soldados feridos é a Igreja.”

Vivemos em um país cristão, cujos conceitos morais foram moldados segundo a interpretação bíblica da normalidade das relações afetivas: homem e mulher. Ser heterossexual, nessa sociedade, equivale a ser normal, ao passo que ser homossexual equivale a ser anormal. A impossibilidade de muitos homossexuais em seguir a norma provoca o que chamamos de homofobia internalizada, ou seja, um sentimento de repulsa pela própria sexualidade. Tal sentimento, reforçado pelo discurso religioso e reafirmado pela sociedade acaba por provocar uma situação irreversível quando o jovem opta por tirar a própria vida.

Em tempos passados (e presentes) homossexuais eram (são) vistos como ameaça à sociedade, ameaça às famílias, aos jovens e às crianças. A tendência natural do ser humano, logicamente, é afastar de si qualquer tipo de ameaça. O episódio de Sodoma – e sua leitura equivocada – levou muitos aos tribunais da inquisição, pois a simples presença de homossexuais em determinada localidade poderia, a exemplo de Sodoma, provocar a ira divina. Essa visão foi propagada pela Igreja durante a Idade Média e prevaleceu por certo tempo, inclusive na época do Brasil Colonial. 

Conclusão: embora os cristãos não admitam, existe homofobia na igreja. As consequências estão aí como provas: elas vão desde a evasão de ovelhas homossexuais ao suicídio. Que um dia a igreja possa rever os seus dogmas e concluir que os ensinamentos bíblicos provocam vida e não morte. Foi para isso que Jesus veio. João 10.10.

A fim de exemplificar o que foi exposto, segue um vídeo, parte do documentário For the Bible tells me so. Vale a pena conferir.


domingo, 1 de janeiro de 2012

A Incoerência Hetero

Foliões heterossexuais em carnaval do RJ
Por Alexandre Feitosa
Hoje é o primeiro dia do ano, feriado de Confraternização Universal. Dia em que todos, a princípio, revêem seus próprios paradigmas, revisam antigas atitudes a fim de começar o novo ano com mais maturidade e mais consciência.

No início da tarde de hoje, ao ir para a casa de meus pais, passando próximo à praça da esquina, deparei-me com uma cena inusitada: uma partida de futebol em que todos os participantes estavam maquiados e travestidos. A partida transcorria alegre, como uma grande festa. E era, de fato, uma festa de confraternização pelo ano que nasce. Naquele momento, creio que fui tomado por um certo sentimento heterofóbico! Risos... Sim, pois não consigo entender como um grupo pode celebrar e consagrar os homossexuais em alguns momentos e agir com violência contra eles em outros momentos. Como entender que a mesma celebração se torne em violência?

Não estou aqui generalizando o comportamento das pessoas de orientação heterossexual, apenas expondo a atitude de muitos, completamente incoerente.

Impossível não me recordar da excelente matéria (de capa) veiculada pela Revista Época – Março de 2011, cujo título era: “Amor e ódio aos gays”. O lead da reportagem  não poderia ser mais claro: No carnaval, o Brasil aceita, imita e consagra os homossexuais. Por que, no resto do ano, há tanta violência contra eles?

Em 2012, estima-se que 252 homossexuais foram assassinados. Orientação sexual dos assassinos? Heterossexual! Quase uma morte por dia. Motivo? Intolerância, homofobia!

Ahmadinejad (Irã) e Mugabe (Zimbábue) perseguem oficialmente os homossexuais
É notório o crescimento das igrejas evangélicas no Brasil. Natural seria que, com o avanço dos cristãos, os direitos humanos fossem ampliados. Mas não é isso que acontece. O que essa igreja tem feito diante desse quadro? Infelizmente a Igreja, de onde a voz que protege a minoria desvalida deveria sair, tem lutado contra todo e qualquer projeto de Lei que torne a homofobia crime no Brasil. Não fossem as bancadas evangélica e católica, tanto no Senado quanto na Câmara, nosso país já teria avançado, e muito, nos direitos humanos para a comunidade LGBT. O amor pregado pelos cristãos tradicionais não encontra lugar quando o assunto é o combate à homofobia. Os maiores mandamentos (confira Mateus 22.37 a 39) são reduzidos apenas ao discurso, não refletindo no principal, ou seja, nas atitudes.

É tempo de reforma eclesiástica! Vidas são ceifadas, e com o aval da Igreja! Não tenho dúvidas de que Deus olha com tristeza e indignação lá do céu cada vez que um cristão luta para perpetuar a intolerância, para suprimir direitos essenciais, como a proteção do Estado às minorias.

Torno a dizer: a Igreja não precisa mudar suas crenças para aceitar a homossexualidade, os homossexuais e seus relacionamentos afetivos; precisa apenas pôr em prática sua pregação, seu discurso e começar a respeitar o ser humano homossexual em sua integridade, olhando-o com o olhar de Deus. Precisa ver em cada homossexual a imagem e a semelhança do Criador.  A Igreja deveria lutar pela proteção de todo ser humano acima de qualquer particularidade que este possua.

A Bíblia, escrita há centenas de anos – mas de uma atualidade incrível – já se indignava com líderes religiosos que agiam assim:

 “Seus líderes são vira-casaca que preferem a companhia dos corruptos. Eles se vendem a quem der o lance maior... Nunca levantam a voz em favor dos sem-teto, nunca se apresentam em favor dos indefesos”. Isaías 1.22 e 23. (Bíblia A Mensagem)

Entretanto, como ocorreu no tempo do Profeta, temos de Deus uma promessa:

“Vou pôr juízes honestos e conselheiros sábios entre vocês, como era lá no início. Então, vocês serão famosos, A Cidade Que Trata Bem O Povo, A Cidade Correta.” Isaías 1.26 (Bíblia A Mensagem)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

PL 122: Mordaça Gay ou Garantia de Direitos Humanos?

          Nunca o PL 122 esteve tão comentado e tão polemizado. Como cristão inclusivo, advindo de uma estrutura cristã conservadora, percebo que a Igreja não tem consciência de que suas crenças e sua defesa não se enquadram ao texto do PL 122. Não há dúvidas de que o discurso religioso tradicional sobre a homossexualidade é nocivo: muitos cristãos afastam-se da Igreja, outros adquirem depressão e, em casos extremos, cometem suicídio após um longo e doloroso processo rumo à mudança, não alcançada em mais de 90% dos casos. Apesar dessas consequências negativas e dolorosas a gays, lésbicas e transgêneros, nenhuma dessas situações pode ser enquadrada ao texto do PL 122.
         Algumas igrejas proíbem às mulheres ocupar cargos de liderança e realizar pregações ou a prática docente. O pior é que o exercício dessa proibição é “validado” segundo suas interpretações bíblicas. É irônico, pois as mesmas igrejas que retiram direitos – no caso, a liberdade de expressão das mulheres – em nome de suas doutrinas, lutam para pôr fim a um projeto de lei que puniria apenas a incitação ao ódio e à violência por orientação sexual, o que protege, inclusive, os heterossexuais, caso sintam-se alvo de alguma manifestação heterofóbica.
         O maior objetivo do projeto é coibir e punir a discriminação e todas as formas de violência advindas desta, o que, a princípio, não se aplica a crenças e opiniões religiosas contrárias à homossexualidade. Estou certo de que, em certos casos, o discurso religioso, mesmo inconscientemente, tende a ser homofóbico, pois produz preconceito, discriminação e, por vezes, algumas formas de violência. Creio também que a Justiça brasileira saberá discernir a questão, aplicando as penas previstas a quem, realmente, promover e praticar atos homofóbicos. Por isso, acredito que este é o momento de a Igreja rever sua postura frente à homossexualidade, ou, pelo menos, rever a maneira como tem tratado cristãos de orientação homossexual. Eles não estão distantes da Igreja, ao contrário, estão lá dentro: são membros, ministros de louvor, pastores, padres etc...
         Nesse cenário, entra o que se chama tolerância, que não é a aceitação plena de algo ou alguém, apenas a manifestação do respeito às diferenças das quais discordamos. Essa deve ser a postura da Igreja e nada há no projeto que ofereça perigo ao respeito advindo da tolerância. Promover amor, respeito e tolerância às diferenças deve ser a postura da Igreja, jamais a promoção de preconceito, discriminação e violência, do contrário não estará refletindo os ensinamentos de Cristo.
         Ontem, 02/06, após reunião com o senador Marcelo Crivella, Marta Suplicy admitiu a possibilidade de um projeto alternativo, já que é consenso entre os senadores a aprovação de uma lei que puna atos homofóbicos. O problema maior é encontrar um denominador comum, que contemple as reivindicações da militância LGBT e das bancadas religiosas. O novo texto seria construído em parceria com Crivella.
         Segundo o portal Rede Brasil Atual:
        Além dos dois parlamentares, participaram também do encontro o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e o presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis. Marta afirmou que o saldo da reunião foi positivo e que o os senadores estão alcançando um consenso. “Temos em comum o combate à violência aos homossexuais e a preservação da liberdade de expressão aos religiosos”, garantiu.

         Nós, cristãos inclusivos, esperamos e oramos para que, por meio da reformulação do PL 122 e sua aprovação, o Brasil se torne um país mais justo e um referencial de respeito aos direitos humanos. Ao contrário do que tem acontecido, as lideranças eclesiásticas deveriam lutar para fazer valer os valores cristãos, contribuindo com o fim da discriminação e da violência, sejam de que ordem for, preservando-se, claro, a liberdade de expressão de ambos os lados. Dessa forma, o PL 122 não deve ser encarado pelos religiosos como uma mordaça, mas como um meio capaz de combater, não opiniões contrárias ou mesmo o preconceito, (muitas vezes, velado ou disfarçado) mas o tratamento discriminatório e a violência contra pessoas de orientação homossexual.
                       
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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Dilma, o discurso da contradição e da ignorância

A decisão da presidente Dilme Roussef em suspender a produção e distribuição do kit anti-homofobia gerou perplexidade e indignação às ONGs envolvidas na defesa da população LGBT, por outro lado, foi motivo de comemoração para a bancada religiosa e seus defensores. Dilma provou, com sua decisão, que o Estado, ao menos o governado por ela, não é laico. Ceder à pressão de religiosos é não saber distinguir as duas coisas e o pior, é desrespeitar os princípios da Constituição que, desde 1890, estabeleceu a separação entre Igreja e Estado. Na Inquisição, Governo e Igreja andavam juntos, e todos sabem os abusos e atrocidades que foram cometidos em nome de uma fé cega e prepotente. Essa mesma fé, cega e prepotente, não morreu com a Inquisição, ela continua viva, delineada e solidificada pelos líderes fundamentalistas da atualidade, muitos deles, ocupando cargos políticos, emperrando avanços fundamentais no que se refere aos direitos humanos, sobremaneira os direitos da comunidade LGBT. Um exemplo disso refere-se à aprovação do PL 122, que criminaliza a homofobia.
            Lembro-me bem de que uma das bandeiras do governo Dilma era a defesa dos direitos humanos, dentre eles, as necessidades reivindicadas pela minoria LGBT, massacrada há décadas pela retrógrada política brasileira. O Governo Lula trouxe avanços sem precedentes nesse sentido, um exemplo disso foram programas como “Brasil sem homofobia”. Dilma, entretanto, parece seguir caminho diferente do de seu antecessor, em uma direção contrária, retroagindo em questões fundamentais que interferem diretamente no estabelecimento da isonomia defendida pela Constituição.
            Segundo o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República, a presidente assistiu aos vídeos do kit e não gostou do tom das produções. Dilma, então, suspendeu a produção e a distribuição do material, previsto para o próximo semestre. O kit seria distribuído para 6 mil escolas de ensino médio e recebeu o aval de várias instituições, dentre elas, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura), bem como a aprovação de vários especialistas.
            Um grupo formado por 30 deputados, dentre eles, Antony Garotinho, representando as bancadas evangélica e católica, obteve tal “vitória” mediante chantagem. Prometeram não colaborar com os projetos do Executivo. Ou seja, são políticos que relegam interesses gerais a um segundo plano, em detrimento dos próprios interesses, motivados por suas convicções religiosas fundamentalistas, discriminatórias e excludentes. Os bons governantes governam para todos, sem esquecer-se das minorias. Tais políticos, julgando-se representantes dos interesses divinos, acabam indo de encontro ao que a Bíblia verdadeiramente ensina sobre o amparo às minorias. São os legalistas da atualidade, opressores do povo em nome da religiosidade. (Malaquias 3.5)
            Dilma e sua equipe classificaram o kit como “material sobre costumes”, demonstrando total ignorância sobre o que é diversidade sexual. Costumes podem ser mudados, diversidade sexual, não. Os vídeos, embora fictícios, retratam situações reais e dilemas a que jovens LGBT são expostos diariamente na sociedade e, principalmente, na escola. Digo isso com propriedade, pois leciono para jovens e adolescentes do ensino médio há mais de 10 anos. Não são raras as situações de bullying homofóbico, sofrido e praticado não apenas por alunos, mas também por professores.          
            Outra prova da ignorância dos políticos envolvidos na censura ao kit foi o uso da expressão “questão comportamental”. Quem realmente se dedica ao estudo da sexualidade humana, ainda que de forma superficial, entende que orientação sexual e questões de gênero não comportam a noção de comportamento, mas de constituição do indivíduo, como ocorre com a heterossexualidade. Estão reproduzindo o velho e mal acabado discurso do religioso fundamentalista mor, Silas Malafaia. Para fechar a seção de desconhecimento do tema, em pronunciamento hoje, 26/05, Dilma afirma que o governo não vai fazer propaganda de opção sexual. Opção sexual? Menos, Presidente! Até os mais leigos sabem que homossexualidade não é questão de opção ou escolha. Mas isso não é o pior. O grande problema é a ideologia por trás das declarações da presidente: a de que a homossexualidade é um mal à sociedade, uma variação sexual danosa a jovens em formação.

            A Presidenta Dilma tem assinalado que seu governo está comprometido com a efetiva garantia da cidadania plena da população LGBT, por meio das ações afirmativas de seus ministérios. Na semana passada, na ocasião do Dia Internacional contra a Homofobia, a ABGLT foi recebida por 12 ministérios do Governo Dilma, onde um item comum em todas as pautas foi o cumprimento do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT. Também na semana passada, por meio de Decreto, a Presidenta convocou a 2ª Conferência Nacional LGBT. Porém, com a atitude demonstrada no dia de hoje acreditamos estar na contramão dos direitos humanos, retrocedendo nos avanços dos últimos anos. Exigimos que este governo não recue da defesa dos direitos humanos, não vacile e não sucumba diante da chantagem e do obscurantismo de uma minoria perversa de parlamentares e líderes fundamentalistas mal intencionados.
            O kit educativo foi avaliado pelo Conselho Federal de Psicologia, pela UNESCO e pelo UNAIDS, e teve parecer favorável das três instituições. Recebeu o apoio declarado do CEDUS – Centro de Educação Sexual, da União Nacional dos Estudantes, da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, e foi objeto de uma audiência pública promovida pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, cujo parecer também foi favorável. Ainda, teve uma moção de apoio aprovada pela Conferência Nacional de Educação, da qual participaram três mil delegados e delegadas representantes de todas as regiões do país, estudantes, professores e demais profissionais da área.[1]

            Pesquisas indicam que o preconceito contra alunos LGBT é real e os tem afastado da escola[2], direito de todos. Essa última atitude da presidente apenas prova que o atual Governo Federal está mais preocupado em interesses próprios que com certas minorias, ou, pelo menos, prega uma coisa e faz outra. Dilma decepcionou e indignou profundamente uma parcela da população que, por meio do voto, ajudou-a a ser sua represente maior.
           


[1] Trechos da nota oficial da ABGLT, Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
[2] A pesquisa “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar” realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, e também publicada em 2009, baseou-se em uma amostra nacional de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, e revelou que 87,3% dos entrevistados têm preconceito com relação à orientação sexual e identidade de gênero. 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Bíblia e os Perigos da Interpretação Literal!

Vejamos alguns dos absurdos - que vão desde a discriminação a assassinatos - que a interpretação literalista e fundamentalista das Escrituras pode gerar. Há muitos outros exemplos, listaremos apenas 5 deles. Para ver as imagens em tamanho maior, basta clicar sobre elas.




















Veja os detalhes das afirmações absurdas do 
Pastor Marco Feliciano, clicando AQUI.
Sobre a discriminação racial na Igreja,
leia um excelente artigo AQUI.

Na próxima postagem, veremos por que
nem os cristãos heterossexuais cumprem
os mandamentos do Gênesis sobre a vida conjugal! Não Perca!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Igreja deve ser contra ou a favor do PL 122?

Por Alexandre Feitosa
Todos os cristãos deveriam conhecer o conteúdo do PL 122 antes de emitir opiniões formadas por terceiros. O projeto não proíbe a livre expressão de pensamento e de opiniões, mas visa coibir a ofensa e a discriminação contra pessoas homoafetivas. Todos nós, assim como Cristo, devemos tratar a todos com igualdade. O projeto de lei também protege os heterossexuais, caso sejam alvo de preconceito! O texto proíbe a discriminação contra qualquer orientação sexual, inclusive a heterossexualidade! Se algum homossexual agir com discriminação contra alguém por ser heterossexual, ele também estará sujeito às punições da lei!
O PL 122 não proíbe a expressão de crenças e doutrinas religiosas, pois a Lei Máxima, a Constituição, já garante esse direito; o projeto apenas procura proteger uma categoria da sociedade historicamente massacrada. Chamar o projeto de Ditadura Gay ou Mordaça Gay só demonstra ignorância do seu conteúdo. Cristo nunca fez acepção de pessoas, nunca tratou ninguém com preconceito e discriminação. Dizer NÃO à aprovação desse projeto de lei é dizer SIM ao preconceito, uma atitude que a verdadeira igreja de Cristo não deveria ter. Ouve-se com freqüência no seio dessas igrejas: “amamos os homossexuais, mas repudiamos suas práticas pecaminosas”. Se a atitude da igreja frente aos homossexuais não é discriminatória, por que muitos temem em assumir essa condição ali?
Outro ponto importantíssimo é que, com o substitutivo apresentado posteriormente, o PL 122 também torna crime a discriminação contra idosos e contra deficientes. O projeto é um avanço a favor dos direitos humanos e contribui para a igualdade social, tão reclamada pelas categorias marginalizadas. Tiago já defendia o amparo aos desvalidos de sua época (Tiago 1.27). Como a Igreja de hoje deve se posicionar quanto a essa questão?
Várias pesquisas, nos Estados Unidos, Europa e Brasil, provaram que o índice de suicídio entre jovens homossexuais é 6 vezes maior que o índice entre jovens heterossexuais. Os especialistas afirmam que pelo menos 40% desses suicídios estão relacionados com o discurso intolerante de muitas estruturas religiosas. A Igreja não pode ficar alheia a esses dados! As igrejas cristãs tradicionais, enquanto sustentarem uma posição intolerante, de exclusão e preconceito, jamais alcançarão os homossexuais para Cristo.
O mais coerente, portanto, é que os cristãos conheçam o texto do PL 122 com seus substitutivos e reflitam para, em seguida, se posicionar de forma consciente e consistente. Infelizmente, muitos não têm opinião própria, mas se deixam levar pelo que os outros ditam nos púlpitos da intolerância e, sem saber, fortalecem uma visão anticristã, que exclui, por meio de um discurso mascarado de amor, uma classe de pessoas que necessita, como todos, da proteção do Estado e, principalmente, da graça salvadora de Cristo.

Resposta a Júlio Severo

Por Alexandre Feitosa

      Júlio Severo, admirado por muitos cristãos por seu ativismo cristão anti-homossexualismo (sic), não mede esforços nem poupa palavras ofensivas para depreciar as pessoas homoafetivas. Gostaria de responder a um texto seu muito famoso e mostrar de que forma os cristãos como ele dizem amar os gays. Vejamos todo o amor de Julio severo pelas pessoas que, involuntariamente, amam iguais. O texto em questão chama-se “Gay” e homofobia: na República Federativa de Sodoma, o que vale é a ficção."

       Para este senhor, exilado em um país não divulgado, pois enfrenta um processo contra homofobia (e não é à toa!), as pessoas homoafetivas alimentam-se apenas de sexo, e sexo em sua forma mais vulgar e nojenta, não há sentimentos nelas, apenas desejo e lascívia. Comprove:
      “No entanto, não há nada de alegre no que eles fazem sexualmente: eles enfiam ou recebem o pênis no ânus, enfiam quase metade do braço no ânus, lambem o ânus uns dos outros, bebem urina uns dos outros, se sujam de fezes uns com outros, etc. Essa é a relação homossexual em seu estado mais puro… Não temos medo deles, nem temos nenhuma aversão irracional a eles. Temos uma aversão racional às práticas deles, com base nas coisas de dar nojo que eles fazem.”

       Bom, pelo menos as lésbicas escaparam de tal descrição!
       Há tantos heteros que praticam as mesmas formas de sexo mencionadas por Severo nesse texto, por que não foram citados? Por que não são alvos do mesmo discurso ofensivo? Os heterossexuais podem se lambuzar nas práticas mais inomináveis que está tudo bem!? Que discurso contraditório, senhor Julio Severo! Deveria ser mais severo com a coerência de suas afirmações absurdas! O primeiro passo seria compreender as diferenças entre as parafilias[1] e a homossexualidade.
       Este homem não tem a menor sensibilidade de enxergar nos homossexuais pessoas dotadas de bons sentimentos e boas intenções, com necessidades afetivas como qualquer outro ser humano. Ele só os vê como caçadores de sexo predatório e praticantes de parafilias! Sua visão é tão limitada, que não consegue enxergar o companheirismo das inúmeras relações duradouras que existem por aí. E essa visão curta se estende, infelizmente, à maioria dos cristãos praticantes. Isso explica por que a Igreja tradicional tem fracassado na conquista dos homossexuais. Ninguém quer expressar sua fé onde se é constantemente agredido verbalmente.
       “Então, de onde vem a palavra “homofobia”? Os sodomitas se apossaram dessa palavra, exatamente como eles se apossaram da palavra “gay” [gay, em inglês, costumava nos bons tempos significar alegre].”
 
       Julio deveria consultar a palavra sodomia em seu dicionário. Tal palavra não se refere apenas à penetração anal entre homens. Outra coisa, os gays não se apossaram de palavra nenhuma. A dinâmica da evolução das línguas, estudada pela Sociolinguística, afirma que uma palavra ganha ou perde determinado sentido pelo uso geral, não por imposição de 10% da população.

       “Eles não são gays [alegres], pois é impossível viver alegre tendo como ocupação principal na vida achar um homem em quem enfiar o pênis.”
 
       Notou quanto amor há nas palavras de Julio Severo? É assim que ele deseja ganhar os homossexuais para Cristo, e muitos cristãos o aplaudem de pé por suas palavras! E Cristo, aplaudiria sua forma ofensiva de tratar os semelhantes?
       Além de abomináveis, os homens homossexuais agora são vagabundos! Não trabalham, não estudam, não produzem, pois sua principal ocupação é a sodomia!
      Ora, senhor Julio Severo, se suas palavras não são preconceituosas e ofensivas, o que elas são?! Expressão de amor ao próximo? Só pessoas ignorantes e alienadas são capazes de exaltar um discurso como o seu!
      “O próprio Deus acha o homossexualismo detestável: “Nenhum homem deverá ter relações com outro homem; Deus detesta isso”. (Levítico 18:22 NTLH) Deus tem boas razões para ter ódio do homossexualismo. E nós temos boas razões para ter nojo do que Deus odeia.”
 
       Em que parte esse texto menciona o amor entre iguais? Senhor Julio Severo, Levítico apenas menciona a prática da sodomia, não da homoafetividade! O sexo predatório, apenas como prazer carnal, é pecado tanto para heteros como para homossexuais. Responda-me: se a homossexualidade é detestável com base em Levítico, por que as mulheres não foram mencionadas? Por que você não defende a morte para os verdadeiros sodomitas? Levítico o manda fazer! (20.13) Não defende porque você é desonesto com a Bíblia a ponto de desconsiderar o seu contexto, utilizando apenas os pontos que lhe são convenientes!
       “É por isso que o homossexualismo vem sendo sistematicamente desligado de suas conexões naturais com doenças, nojo e abuso sexual de meninos. E é por isso que esses problemas graves estão aumentando, junto com o aumento do homossexualismo. Comprovadamente, o aumento da AIDS e outras doenças sexuais e intestinais tem uma ligação forte com a atividade homossexual.”
 
       Agora ele liga os homossexuais aos abusadores de crianças! Senhor Julio Severo, pedofilia não é sinônimo de homossexualidade! Será que é tão difícil pra você distinguir duas palavras tão distintas!? A pedofilia também ocorre entre heterossexuais, mas o senhor Julio não liga a heterossexualidade a essa parafilia! Percebam a tendenciosidade do seu discurso!
       Sobre as doenças, lamento informar, mas o índice dos casos de AIDS tem aumentado na população hetero, não na homossexual. Pesquise antes de afirmar asneiras, caro senhor:
      "Segundo o boletim, em 1996, 29,4% dos casos de Aids registrados na população masculina foram em homens homo ou bissexuais, 25,6% em heterossexuais e 23,6% em usuários de drogas injetáveis. Em 2006, também considerando a população masculina, 27,6% dos casos de Aids registrados foram em homens homo ou bissexuais, 42,6% em heterossexuais e 9,3% em usuários de drogas.
(Para detalhes, leia a matéria do seguinte link: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL187157-5598,00.html
      Veja outra afirmação ofensiva e absurda: 
     “Se quiser conferir o que é a “bondade” homossexual em ação, experimente ver como os homossexuais “apaixonados” tratam seus amantes masculinos: com ciúme doentio, a ponto de agredir e matar por questões mínimas. Recentemente, um homossexual foi preso por manter em cárcere privado seu amante homossexual, que sofria maus tratos e agressões. Em outro caso, um adolescente homossexual foi torturado e morto por um jovem homossexual de 18 anos porque o amante lhe transmitiu uma doença sexual. Essa é uma pequena amostra da realidade homossexual, envolvendo maus tratos, agressões, tortura e morte.”
 
       Quantas mulheres são espancadas diariamente pelo ciúme doentio de seus maridos? Isso sem mencionar as que são assassinadas em nome do “amor” hetero. Os índices de agressão entre os heterossexuais é infinitamente maior que entre os homossexuais! Mas Júlio não enxerga isso! Ele deveria condenar a heterossexualidade com base nessas agressões! Por que não o faz? Porque ele usa em seu discurso o que a Filosofia classifica como falácia, um discurso falso “vestido” de verdade! Que belo exemplo de cristão! Tendencioso e demagógico! Condena uma minoria com fatos isolados e aplaude a maioria por fatos muito mais comuns! Exatamente como Jesus falou: Coa um mosquito e deixa passar um camelo! Quanta incoerência em um homem que se diz servo de Deus!
       Para encerrar, veja o absurdo e o alto grau de preconceito e ofensa da seguinte afirmação:
"…eles não são felizes e não trazem nenhuma felicidade para ninguém, nem para suas próprias vidas, nem para o restante da sociedade, principalmente vulneráveis adolescentes e meninos."
 
       Esse é o discurso de amor apoiado por vários cristãos do Brasil! Nossa! Aprendemos tudo errado sobre o amor ao próximo, a tolerância e o respeito… Aprendamos com o senhor Julio Severo, ele tem mais a nos ensinar que o próprio Cristo! Palmas pra ele! 
Outro trecho absurdo:

      "Um fato pouco divulgado é que a população é vítima de criminosos homossexuais. Na Bahia, um casal homossexual jovem matou a tiros e facadas cinco pessoas, entre mulheres e crianças. Essa é uma pequena amostra da realidade homossexual, envolvendo tiros, facadas e chacina."
 
      Meu Deus! Essa afirmação é a mais absurda de todas! Assassinos existem em qualquer instância, entre homo e heteros. Porém, há uma grande diferença: várias pessoas foram mortas por serem homossexuais, mas quantas foram mortas por serem heterossexuais? Que o responda Julio Severo.
      Os seus argumentos são falaciosos e se baseiam em fatos isolados, comuns a homo e heterossexuais. Felizmente ainda há pessoas esclarecidas, que conseguem enxergar as inúmeras incoerências no discurso desse senhor que insiste em se dizer cristão.

[1] Condutas sexuais, geralmente como expressão de fetiches, porém com um caráter predominantemente anormal. As parafilias são comumente conhecidas como perversões sexuais. A zoofilia (sexo com animais), a coprofilia (uso de fezes no ato sexual) a urofilia (uso da urina) , o fisting (inserção da mão ou antebraço no ânus ou vagina) e a pedofilia são consideradas parafilias. Tais desvios podem estar presentes tanto em relações homo como heterossexuais e não podem servir de padrão para expressão de uma sexualidade sadia.
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